Especialista explica como mau uso do celular pode causar dependência e levar a crises de ansiedade Recentemente, 26 alunos de uma escola estadual do Recife/PE passaram mal com falta de ar, tremor e crise de choro. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) informou que os alunos tiveram uma crise de ansiedade. Como esses quadros de ansiedade dos jovens podem ser influenciados pelo mau uso do celular e das redes sociais?

O neurocientista, PhD, Dr. Fabiano de Abreu Agrela vem alertando desde 2018 sobre o ambiente digital provocar sérios riscos para a saúde mental de crianças e adolescentes. Casos como esse estão se tornando cada vez mais comuns. Inclusive, este foi o tema em sua turnê de palestras na Campus Party Brasil, Bolívia e agora em Portugal. O cientista do Hospital Martin Dockweiler afirma que o problema é universal, mas é pior no Brasil.

Agrela chegou a dizer no início da pandemia que o Brasil seria o maior consumidor de celular do mundo, o que se confirmou no final do ano passado. "O brasileiro é o povo mais ansioso do mundo, isso tem relação com a violência, diferenças sociais e agora com a pandemia e questões políticas. Excesso de ansiedade cria a necessidade de recompensa e sensações de bem estar melhor exploradas nas redes sociais, mas este ciclo recompensa e ansiedade acentua-se mais já que, para buscar novas e melhores sensações a ansiedade torna-se constantemente acionada. Essa hiperatividade causa diminuição das regiões da emoção e da inteligência no cérebro colocando a vida das pessoas em risco por diversas consequências." disse o cientista.

O apego exagerado dos jovens com o celular, chegando a ser até doentio, se tornando uma necessidade incontrolável da qual a pessoa não consegue se livrar, preocupa o professor há muitos anos, mas vêm ganhando mais alarde após casos como o dos estudantes do Pernambuco.

Apesar de ser um assunto que está ganhando os holofotes somente agora, o PhD, neurocientista, psicanalista e biólogo vem alertando sobre este assunto desde 2018: "Naquela época, publiquei um artigo científico que detalha o funcionamento do cérebro e como a internet afeta a região da inteligência, da lógica e coerência. Da região que orquestra todas as demais regiões, que alerta às consequências e que controla a emoção. Em 2019, eu já havia avisado a minha filha e demais crianças sobre o Tik Tok e que ele é mais perigoso que o Instagram", ressalta.

Segundo Fabiano, "o que acontece no cérebro é essa intercepção, uma falta de controle emocional que desencadeia disfunções que acarretam atitudes impulsivas". E a situação pode piorar ainda mais, revela: "A rede social vai causar danos ainda mais sérios e pode levar à morte. Empresas como Facebook e Tik Tok sabem disso e continuam investindo em neurociência inadequadamente, para que as pessoas liberem cada vez mais dopamina que é viciante segurando assim o usuário. A dopamina é conhecido como neurotransmissores da recompensa, liberada já na expectativa, mas não somente a dopamina como outras substâncias químicas estão envolvidas. O cérebro busca sempre as boas sensações aumentando a ansiedade que funciona como uma pendência para mais liberação dessas substâncias."

Para quem não conhece, o neurocientista explica o efeito deste agente químico no organismo: "A dopamina é um neurotransmissor da recompensa que o organismo pede sua liberação de forma gradativa. Além disso, a falta de atenção, dificuldade de memorização, excesso de ansiedade, desmotivação constante e oscilações emocionais. São fruto dessa disfunção". Diante deste cenário sombrio pela frente, Abreu lamenta que muita gente ainda não tenha noção da gravidade do problema que está aí: "As pessoas não estão levando a sério pois também estão dependentes da rede social. Como um comboio que prefere não enxergar os danos que ela causa já que também se satisfaz com ela", sinaliza.