Analzira Nascimento: a vocação dinâmica

Uma jovem enfermeira que deixou família, igreja, o conforto de uma vida estável no Brasil, para anunciar o Evangelho em Angola não sabia que viveria os horrores de uma guerra civil. A missionária Analzira Nascimento teve a opção de retornar ao Brasil para uma vida segura, mas decidiu depositar toda a sua confiança em Deus e se deixar usar por amor ao próximo e ao cumprimento do seu chamado. Acabou ficando 17 anos no país africano, onde implantou diversos projetos e um Seminário Teológico. Ela não queria ficar de fora do que “Deus estava fazendo no mundo”, como costuma dizer. Hoje Analzira usa seus dons e talentos para levantar vocacionados no Brasil e no mundo e compartilhar seus conhecimentos e experiências, nas aulas que ministra na Faculdade Batista Teológica, em São Paulo, e através de dois livros: “Evangelização ou Colonização” e “Todos Somos Vocacionados”, um e-book.

 

Analzira é Doutora em Ciências da Religião, enfermeira, missionária da Convenção Batista Brasileira e agora escritora. Seu primeiro livro chegou a desbancar o badalado autor C.S. Lewis. Você esperava esta repercussão em tão pouco tempo como escritora?



Analzira Nascimento: Não, eu não esperava porque é um tema que a gente não tá acostumado a conversar muito, na nossa cultura brasileira. Acho que nós estamos querendo refletir e entender nossa história para poder hoje sermos mais usados por Deus e ter posicionamentos mais coerentes. 



Como surgiu o tema “Evangelização ou Colonização”? 



Foi uma pesquisa de 5 anos. Eu fui na nossa história, desde o cristianismo medieval, cristianismo da reforma, até hoje, entendendo toda essa caminhada do cristianismo e eventos que influenciaram e por que nosso paradigma hoje tem esse modelo. Por que nós fazemos assim, pensamos assim? Esse livro é um estudo sobre como sedimentaram essas ideias e como sedimentou essa prática missionária.



Como você entende o conceito de missão?



Uma das matérias que eu dou é Teologia da Missão. Nessa disciplina nós refletimos muito sobre o ideal bíblico, o que a Bíblia fala sobre missão. Nós trabalhamos a Bíblia desde Gênesis, mostrando esse propósito que Deus tem, e que Deus tinha, que o homem parcialmente, temporariamente, não vou dizer estragou, mas comprometeu. Por isso eu uso muito essa frase ‘Deus, não me deixe de fora do que o Senhor quer fazer no mundo’. Nós trabalhamos muito esse conceito de que missão é o que Deus está fazendo para cumprir seus propósitos,  e convida a cada um de nós a participar. Então eu não quero ficar de fora. Só que não é simplesmente se envolver e vamos pregar, e vamos trazer almas para o céu, mas é nós sermos presença Cristã no mundo e a nossa maior marca é o amor.



Então podemos dizer que hoje várias pessoas têm um conceito equivocado de missão?



O livro fala muito de que nós não temos que buscar uma missiologia gerencial, que vai buscar metas. Essa obsessão por metas e programas tornar o outro invisível; nós ficamos tão preocupados em cumprir uma meta ou cumprir os programas evangelísticos que não energamos o outro. Então nós anulamos as pessoas, negamos a identidade das pessoas. Então o livro trabalha muito isso que se você amar mesmo, o amor cria essa coisa do relacionamento e nos relacionamentos vai surgir o melhor evangelismo possível. Jesus falou “Ame o teu próximo como a ti mesmo”. Então o livro trabalha a questão da alteridade, que é a capacidade de você se colocar no lugar do outro.



E como é servir através de ações sem que isso pareça simplesmente assistencialismo?



Eu acho que as coisas podem caminhar juntas, não podemos nunca esquecer esse lado do querigma da proclamação de falar de Jesus claramente. Porque eu acho que se você não falar de Jesus, você não fez missão. Em algum momento você tem que falar que Jesus é o Senhor. Eu trabalhei 17 anos em Angola, mas a coisa era muito em relacionamento era muito, isso que eu falo no livro, essa alteridade, essa capacidade de se colocar no lugar do outro. É você pensar no que Jesus falou que aquilo que você deseja que o outro faça para você, faça você também. Realmente às vezes a gente vê muita igreja hoje que é um shopping, show, às vezes a mensagem não está ficando muito clara.



No e-book você fala sobre uma de suas paixões, que é a vocação. Todos somos vocacionados?



É muito diferente falar todos são missionários. Eu não falo isso, não falo que todos são missionários. Eu falo que todos somos vocacionados. Todo Cristão tem uma vocação e alguns têm vocação missionária, outro tem vocação pastoral. Mas todo cristão tem sua vocação onde está, com o que faz, com que é, ele participa do que Deus está fazendo no mundo. Então eu posso disponibilizar meus talentos, minha vocação, meus dons, para ser usado por Deus onde eu estiver. 



E a vocação é única?



Eu vivi em Angola durante 17 anos como missionária, sou enfermeira, abri um seminário. Então no campo missionário eu trabalhava tanto na saúde, que era a profissão que Deus usou para viabilizar o meu trabalho, quanto desenvolvendo projetos. O país era comunista e em guerra, então a minha profissão viabilizou minha permanência lá. E eu também pregava o Evangelho; abri um seminário e ajudei a fundas muitas igrejas. Graças a Deus. No livro eu falo isso, que a vocação é dinâmica, você não tem que ter medo de entregar a vida para Deus.



O que é vocação dinâmica?



Você não tem que falar que vai ficar “300 anos na África”, por exemplo. Não! A vocação é dinâmica. Deus usa você aqui hoje, depois você pode mudar. Vocação não é você ficar numa carreira específica a vida inteira. Ela pode mudar. Eu estava no seminário em Angola, depois vim para o Brasil, trabalhei com o programa Radical, voltado para jovens, durante alguns anos, hoje estou na docência. Mas basicamente a vocação, aquilo que eu gosto e me dá paixão, é levantar pessoas, acompanhar pessoas, é caminhar com pessoas, discipular. Então o livro “Todos Somos Vocacionados” é interessante porque ele tem artigos de vários autores. A minha ideia era pegar artigos de vários jovens, mas eles não conseguiram entregar a tempo. Eu não sou a protagonista, eu só queria ser a organizadora.