Pastoras criam grupo de combate à violência contra evangélicas

Um grupo de pastoras evangélicas de diferentes denominações protestantes se uniu para debater ações práticas de combate à violência contra as mulheres dentro das igrejas. A iniciativa visa promover a sensibilização dos líderes das igrejas sobre o tema, além de capacitar as vítimas que não possuem independência financeira. O projeto foi elaborado há quase seis meses e será colocado em prática agora. As igrejas que aderirem à proposta ganharão um selo especial: o “Viver em Paz“.



O grupo é composto por 20 pastoras pertencentes a mais de 15 denominações protestantes. As líderes enfrentarão um tema que ainda hoje é considerado um tabu dentro das igrejas, a violência contra a mulher no meio cristão. 



Apesar da carência de informações por parte do estado, um levantamento sobre o assunto promovido pela Casa Sofia (espaço de atendimento para as mulheres alvos de violência em São Paulo) revelou que 40% das mulheres atendidas declararam serem evangélicas. No Brasil, estima-se que 30% da população seja protestante.



A escritora e socióloga Valéria Cristina Vilhena, doutora em Educação, História e Cultura, mestre em Ciências da Religião, autora do estudo, afirma que trabalhos deste tipo demonstram o reconhecimento de que as mulheres evangélicas não estão isentas da violência, pelo contrário.

Infelizmente, há muitos casos e depoimentos coletados que mostram que elas são orientadas por líderes a permanecerem no casamento, mesmo sendo alvos das mais variadas formas de violência, inclusive a física.



“[Um pastor] Orientou uma mulher a ter mais paciência, a aprender a lidar com o marido. Aquela mulher decidiu que nunca mais buscaria ajuda do pastor. Terminou se separando, mas não abandonou a igreja. O exercício da fé a mantinha forte, mas preferia sentar no último banco da igreja”, contou Valéria.



Cientes do desafio a ser encarado, as próprias lideranças femininas buscam renovar a estrutura de poder das igrejas baseada em alguns conceitos. Um deles é o casamento indissolúvel — quando não se aceita o divórcio — , o perdão e a resiliência em relação aos problemas do casamento, e que elas avaliam estarem sendo mal interpretados.



O projeto

Simbolicamente, o projeto teve início no dia 8 de março deste ano, Dia Internacional da Mulher, em uma reunião das pastoras e líderes de igrejas com a vice-governadora do Espírito Santo, Jaqueline Moraes.



“Seis meses após esta reunião elas apresentaram o projeto, um trabalho pioneiro, sem placas, que surgiu da união de mulheres que tem se posicionado por não silenciar diante da violência contra a mulher”, assinalou a vice-governadora, que é evangélica há quase 30 anos.



O grupo visa promover, nas igrejas evangélicas, alguns tipos de ações, tais como:

•    Sensibilizar os pastores, líderes das igrejas, a se comprometerem com o projeto.

•    Criar um selo “Viver em Paz?" para as igrejas que adotarem o projeto.

•    Criar multiplicadores nas igrejas para o trabalho de orientação e conscientização.

•    Criar rodas de conversa sobre o tema.

•    Realizar palestras de prevenção para crianças, adolescentes, jovens, mulheres e homens.

•    Atuar na identificação da profissionalização das mulheres, ajudando-as na busca de independência financeira.

•    Oferecer ou orientar sobre como obter apoio para as questões emocionais.

•    Capacitar as instituições e membros da comunidade para lidar com o tema.

•    Realizar, mais a frente, pesquisa no meio evangélico sobre o tema.

•    Criar uma campanha de incentivo à denúncia, por vizinhos e familiares, além das vítimas.