Proposta para incluir cidadãos LGBTQIA+, linguagem neutra exclui outros grupos

Defendida pela comunidade LGBTQIA+ como um mecanismo de inclusão, a linguagem neutra pode acabar na verdade excluindo um número maior de pessoas que o de militantes favoráveis ao “todes” ao invés do “todos” ou “todas”. Isso porque a alteração na gramática portuguesa poderia levar longos anos para ser adaptada. E um dos grupos mais prejudicados seriam os cegos.

Em um vídeo recente, a jornalista e influenciadora digital Nathalia Santos explicou com detalhes por que o uso da letra “x” (xis) ou do sinal de “@” (arroba) atrapalham a acessibilidade para quem depende de leitores digitais que traduzem para áudio o que está escrito. A utilização de ambos os elementos costuma aparecer como alternativas para neutralizar o gênero de palavras em português.

“Fica muito difícil a nossa compreensão num texto, por exemplo, com várias palavras quando a gente coloca um ‘tod@s’, um ‘todxs’. A gente não consegue entender. Às vezes, a gente precisa ler três, quatro vezes o mesmo texto, o mesmo artigo, pra chegar na mesma compreensão.”

Outro grupo que seria prejudicado caso a linguagem neutra fosse adotada seria o dos disléxicos.

“Vim falar pelos disléxicos também. Eu não consigo ler um texto com coisas assim. Inclusive já brigaram comigo dizendo que eu estava de birra, que não queria respeitar. Eu não consigo mesmo”, comentou Ana Gabi, usuária do Twitter, no vídeo publicado por Nathália.

Apesar da pressão da grande mídia em passar estar pauta, pelo menos19 estados brasileiros e o Distrito Federal têm projetos de lei para impedir o uso de gênero neutro na língua portuguesa. O levantamento foi feito pela Agência Diadorim. Ao todo, 34 propostas tramitam em Assembleias Legislativas do país. Todas querem impedir a variação na norma gramatical para além do binário masculino e feminino.

A primeira lei aprovada e sancionada é de Rondônia. Ela foi assinada pelo governador Marcos Rocha (PSL) em 19 de outubro e proíbe a linguagem neutra na grade curricular e no material didático de instituições de ensino públicas ou privadas e em editais de concursos públicos.

Os lugares com mais projetos desse tipo, cada um com três propostas, são Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro e Santa Catarina. O Sudeste é a região onde há maior concentração de proposições, 11, seguido do Nordeste, com 10, e do Centro-Oeste e Sul, ambos com seis. No Norte, apenas o Amazonas discute o assunto, além de Rondônia, que se tornou o primeiro estado a aprovar uma legislação sobre o tema.

Em 24 de julho deste ano, o uso da palavra “todes” em uma postagem do Museu da Língua Portuguesa, nas redes sociais, despertou reação do secretário especial de Cultura do governo federal, Mário Frias. Ele acusou a instituição de vandalizar a cultura e afirmou que tomará medidas “para impedir que usem dinheiro público federal para piruetas ideológicas”.