Movimento escoteiro troca

Uma polêmica tomou conta do movimento escoteiro do Brasil. O gesto da mão direita — polegar sobre o mindinho e os três outros dedos estendidos — vem do clássico sinal escoteiro. Os três dedos esticados representam as três partes da promessa escoteira: deveres para com a pátria, deveres para com o próximo e deveres para com Deus. É justamente o debate em relação ao divino que tem agitado a comunidade.

Durante a Assembleia Nacional dos Escoteiros do Brasil, em meados de setembro, estava em pauta a votação de uma proposta para alterar os princípios do movimento escoteiro. Até então, um desses princípios era intitulado como "relação com Deus", e pregava que os jovens deveriam "ir além do mundo material", "seguir caminhando em busca de Deus" e abrir-se "ao interesse, à compreensão e ao diálogo com todas as opções religiosas" para reconhecer, viver e compartilhar "o sentido transcendente de sua vida, sem posicionamento sectário e sem fanatismo".

No entanto, uma proposta quer substituir a palavra "Deus" por "vida espiritual", além de defender outras mudanças. "Temos escoteiros de outras religiões, como teístas [que creem em um deus, ou mais de um deus] ou budistas, que não se sentiam confortáveis com a palavra 'Deus'", conta Matheus Valois Serra, 22, católico e representante da região Nordeste no Conselho de Administração Nacional. "Propusemos trocar essa palavra por espiritualidade, já que 'deus' está dentro do leque da espiritualidade."

A ideia não foi bem recebida por cristãos e conservadores. Ela deveria ter sido votada em maio, mas os delegados regionais — que têm poder de voto na assembleia — pediram mais tempo para analisar a proposta. A polêmica ficou para a reunião de setembro.

De maio a setembro, alguns delegados aproveitaram para visitar grupos escoteiros dos seus estados e conversar com chefes e jovens.

Na regional do Paraná, optaram por abrir uma votação para que cada grupo escoteiro se posicionasse. Resultado: 59% reprovavam a mudança, 21% a aprovavam e 19% queriam continuar o debate.

O escotismo é um movimento feito por jovens e para os jovens, com o auxílio dos adultos. Foi criado pelo militar inglês Robert Baden-Powell, em 1907. Originalmente, os princípios de Powell mencionavam deveres para com Deus — os primeiros escritos falam em "prática da Cristandade" — e o Rei. Com a expansão do movimento escoteiro para outros países, adaptações locais transformaram "Rei" em "Pátria". Agora, querem tirar seu principal fundamento: Deus.

Em 2017, a Conferência Mundial Escoteira, realizada no Azerbaijão, aprovou alterações e recomendou que as direções criassem promessas alternativas. Foi a partir dessa recomendação que o conselho pautou as mudanças nos princípios.

"Querem tirar Deus da promessa, uma ideia simples...Criem um movimento e caso encerrado", disse um chefe escoteiro de Londrina (PR) nas redes sociais.

"A proposta era de inclusão. E a promessa nunca esteve ameaçada", tenta amenizar Valois.

A Assembleia Nacional começou às 9h e durou seis horas e quinze minutos. Depois da saudação à bandeira brasileira, os participantes votaram pela composição da mesa diretora da reunião e deliberaram sobre a aprovação da ata da última assembleia — só esse preâmbulo durou duas horas. A partir daí, as discussões se centraram no principal: a alteração no princípio que falava de Deus. Todos que pediram a palavra puderam falar por dois minutos.

Os ânimos se exaltaram diversas vezes. Para apaziguar, a regional de São Paulo propôs um texto alternativo. Em vez de trocar "deus" por "espiritualidade", haveria uma mistura das duas, com o título "o compromisso com o aprimoramento da sua espiritualidade, seja ela inspirada em Deus ou em outras convicções".

Mas o grupo contrário à mudança não ficou satisfeito.

A mesa diretora colocou em votação proposta original. A maioria (57%) rejeitou a mudança. Quando a proposta original foi rejeitada, as pessoas que se manifestavam pelo chat do YouTube passaram a comentar: "Deus seja louvado", "Deus é fiel", "Amém, ninguém maior que Deus".

Depois de mais três horas debatendo, a mesa diretora procedeu para a votação da proposta de São Paulo. Nesse momento, muitos acusaram a assembleia de estar "promovendo um golpe".

A proposta que autodenomina inclusiva foi aprovada com 61% dos votos, contra 29% que disseram não e 10% que se abstiveram. Pelos comentários do chat, as acusações foram ríspidas.

"Malditos progressistas", "Que Deus tenha misericórdia de todos" e "Podemos seguir o diabo agora?" foram alguns dos comentários que apareceram, além de outras acusando fraude e falando em voto impresso.

Nas redes sociais, alguns aproveitaram para desabafar. Flaviane, que é evangélica, publicou no Facebook que estava renunciando ao cargo de membro do corpo jurídico da instituição — ela é advogada e lidera uma equipe que pede revisão das mudanças.

Para ela, existem duas saídas possíveis: a judicialização da questão ou o desligamento dela e de outros grupos da união dos Escoteiros do Brasil.

A direção nacional dos Escoteiros do Brasil afirmou que, até o momento, duas unidades escoteiras — das mais de 1.500 — pediram desfiliação.

*Foto: Escoteiros do Brasil