Dia Mundial de Combate ao Suicídio: prevenção exige atenção e cuidados sobretudo com jovens e idosos

Uma pesquisa sobre a saúde mental na pandemia mostrou aumento de casos de depressão e ansiedade entre jovens. Especialistas apontam que os casos podem evoluir para comportamentos suicidas. Hoje, 10 de setembro, o mundo lembra o Dia Mundial de Combate ao Suicídio. Todos os anos, cerca de 800 mil pessoas tiram a própria vida em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Só no Brasil, são 12 mil, de acordo com o Ministério da Saúde.

Os números preocupam. Tanto é que durante todo o mês é realizada a campanha Setembro Amarelo, que este ano tem como tema “Agir Salva Vidas”. O objetivo é dar mais visibilidade à prevenção do suicídio.

Dados compilados pela insurtech brasileira Azos indicam que, entre 2014 e 2019, o número de suicídios no Brasil aumentou em 28%. No período, segundo o levantamento, as pessoas que tiraram a própria vida passaram de 9,7 mil para 12,4 mil. 

Para chegar a esse número, a empresa de tecnologia, especializada em seguros de vida, cruzou dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) com a base histórica de mortes disponibilizada pelo governo federal no portal dados.gov.br.

De acordo com a empresa, entre jovens de 11 a 20 anos, houve um aumento de casos de 49,6% no período. No entanto, a maior incidência de mortes por suicídio está na faixa etária que vai de 21 a 30 anos. 

A tendência de alta entre jovens já havia sido constatada em um estudo feito pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e publicado em 2019. A pesquisa indicou que houve um aumento de 24% nos casos entre 2006 e 2015, com maior frequência entre jovens do sexo masculino. 

Para Fábio Gomes de Matos, psiquiatra do Hospital Universitário Walter Cantídio, que faz parte da Rede Ebserh, e professor de psiquiatria da UFC (Univerdade Federal do Ceará), uma das explicações para o aumento de casos entre jovens seria a imaturidade do sistema nervoso e emocional desses indivíduos. "Isso os torna extremamente impulsivos e com uma necessidade de buscar recompensas rápidas", avalia o especialista. 

Ele aponta ainda que a alta no número pode ocorrer, em parte, a uma maior notificação de casos —o que indicaria uma maior abertura para falar sobre o tema. "Mas isso ainda não está claro", diz. 

Ações


Preocupados com o aumento de casos de suicídio e de automutilação no país, sobretudo no contexto da pandemia de Covid-19, deputados e representantes do governo federal e da sociedade civil defenderam na quinta-feira (9), na Câmara dos Deputados, pequenas ações do dia a dia, como ouvir, apoiar e orientar outras pessoas, como estratégia para preservar vidas.

Leila Herédia, que representou no simpósio o Centro de Valorização da Vida (CVV) – organização não-governamental que reúne voluntários treinados para oferecer ajuda por telefone (Disque 188), chat e e-mail – disse que é preciso ampliar a escuta de pessoas em situação de vulnerabilidade e estar atento a todos os sinais. 

“A escuta que o CVV faz qualquer um pode fazer, desde que esteja treinado para perceber os primeiros sinais. Se a pessoa estava sempre sorridente e não está mais, se era brincalhona e não é mais, se gostava de sair e não gosta mais, ou outras mudanças repentinas de comportamento, isso pode indicar uma necessidade de apoio ou ajuda. Sempre vale perguntar”, observou.

Marta Axthelm, da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata), demonstrou preocupação especial com casos de suicídios entre os jovens. Ela citou dados de uma pesquisa sobre a saúde mental na pandemia com 2 mil entrevistados e afirmou que jovens entre 18 e 24 anos de idade revelaram ter sentido sintomas como crises de choro (39%), insônia (45%), tristeza (59%) e angústia (51%) no período. “A partir desses sinais, foram diagnosticados casos de depressão (8%) e ansiedade (19%), que, sabemos, podem evoluir para comportamentos suicidas”.

Marta Axthelm destacou ainda que, com a pandemia, a Abrata passou a atuar oferecendo aos jovens a oportunidade de participar de grupos de conversas online. “Agregamos nesses grupos temas que se tornaram recorrentes, com auto-lesão, pensamentos suicidas e tentativas de suicídio. Percebemos o quanto é importante esse falar, a pessoa se ouvir e ouvir os demais”, disse.

Mestre em Educação, Elias Lacerda pontuou que entre os fatores que podem levar jovens a desenvolver ansiedade ou depressão atualmente estão o bullying ou autobulliyng digitais. No caso do autobullying, explicou, alguns jovens, a fim de submeter ao julgamento público alguma característica pessoal que o inquieta, postam comentários autodepreciativos em perfis falsos na internet. "O adolescente cria um perfil no Instagram, coloca um comentário depreciativo a ele mesmo e aguarda os comentários dos internautas. A partir dali, ela passa a sofrer com aqueles comentários”, diz.

Idosos

A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, que também participou do simpósio, demostrou preocupação especial com casos de automutilação envolvendo  jovens e de suicídios de idosos. Ela destacou ações de combate ao suicídio desenvolvidas pelo governo federal, como o programa Alô, Vovô, que conta com atendentes treinados para atender idosos que procuram o Disque 100 – canal para denúncias de violações de direitos humanos.

"Eles queriam ouvir uma voz, queriam conversar com alguém sobre suas angustias, tristezas e sobre a vontade de morrer. Nosso Alô, Vovô veio como um auxiliar nesse período de tanta tristeza da pandemia”, disse a ministra.

Saúde mental


Secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro ressaltou que 97% dos casos de suicídio no País estão relacionados a transtornos mentais, como depressão, bipolaridade e e ansiedade.

Ela citou dados de uma pesquisa com 17 mil pessoas que avaliou os impactos da pandemia na saúde mental da população brasileira. Segundo a pesquisa, 86,5% dos entrevistados apresentavam algum tipo de ansiedade. A pesquisa mostrou ainda que o uso de antidepressivos na pandemia aumentou 15,79%.

Entre as ações do ministério da Saúde para prevenir o suicídio ela citou o programa que envolve a capacitação de todas as equipes do SAMU para a assistência a pacientes com sofrimento psíquico.

Quer ajudar ou está precisando de ajuda? O telefone do Centro de Valorização da Vida é o 188. A UPA 24 horas e o Samu também prestam auxílio nestes casos.