Entrevista: Campanha Respire Agosto alerta para o câncer de pulmão

Segundo tipo mais comum da doença no Brasil, o câncer de pulmão é responsável pela morte de 1,76 milhão de pessoas por ano em todo o mundo. Apesar de ter o tabagismo com principal fator de risco, 20% dos diagnósticos da doença estão em indivíduos não fumantes.

É o que adverte o Instituto Lado a Lado pela Vida, idealizador da campanha 'Respire Agosto', voltada para a prevenção do câncer de pulmão no Brasil. Com atividades desde o primeiro dia do mês, a campanha tem como slogan 'Fôlego para a Vida', destacando a importância da saúde dos pulmões para atividades diárias como caminhar e trabalhar.

Para falar mais sobre o cenário da doença no Brasil, o Melodia News entrevista hoje Marlene Oliveira, presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida.

Confira:

Você pode contar um pouco sobre Instituto Lado a Lado pela Vida e a campanha 'Respire Agosto'?

Marlene Oliveira:
O Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL) nasceu da necessidade de conscientizar a população masculina sobre o cuidado com a saúde em 2008. Um projeto de sucesso por nós idealizado, que tem demonstrado grandes resultados, é a campanha Novembro Azul. Conseguimos aos poucos quebrar o tabu sobre o exame de próstata entre os homens brasileiros e ao mesmo tempo bater na tecla do autocuidado. Observamos que ao longo dos anos a cultura tem se modificado.

Temos como objetivo também alertar sobre os riscos das duas enfermidades que mais matam no mundo: as doenças cardiovasculares e o câncer. Abordar esses dois temas juntos é uma iniciativa que só o Instituto Lado a Lado pela Vida tem.  Com base nesse propósito, além do Novembro Azul, temos outras campanhas, como a Respire Agosto, voltada para o combate ao câncer de pulmão, o segundo tipo mais comum no Brasil e o que mais mata. Dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA) apontam que ele é o responsável pela morte de 1,76 milhão de pessoas por ano no mundo. Uma informação alarmante e que merece atenção. O nosso objetivo é alertar a população sobre o problema e encontrar soluções para achatar esse número por meio da conscientização sobre o tabagismo e outras possíveis causas.

Outra linha nossa de atuação é a do estímulo à criação de políticas públicas que deem assistência aos acometidos pelo câncer e doenças cardiovasculares e proporcionem facilidade no acesso ao diagnóstico precoce. É um grande desafio, mas o Instituto Lado a Lado é um ator social que desempenha o seu papel na promoção da saúde à população brasileira.

Qual é o cenário do câncer de pulmão hoje no Brasil?

O último levantamento do Instituo Nacional do Câncer (INCA) revela que, em 2019, 29.354 pessoas morreram de câncer no Brasil. Destes, 16.733 eram homens e 12.621 mulheres. A previsão para novos casos em 2020 foi de 30.200. São números bem expressivos. O cenário não é positivo, mas estamos trabalhando para mudá-lo. Precisamos ampliar o alcance da informação a respeito da doença, já que ela pode ser prevenida com a redução do tabagismo, por exemplo. Aos poucos, a taxa está sendo reduzida. O percentual do tabagismo na população acima de 18 anos quando a campanha começou, em 1989, era de 34,8%, já em 2019 ele caiu para 12,4%. É importante mostrar os desafios, mas também o quanto caminhamos.

Quais são os principais sintomas e riscos da doença?

O principal é o tabagismo. Cerca de 85% dos casos de câncer estão relacionados ao cigarro. O hábito de fumar é nocivo à saúde e atrapalha os achatamentos dos casos. Estou me referindo também ao fumante passivo, que é prejudicado por conviver com fumantes no dia a dia.  Porém existem outros fatores que podem acarretar o surgimento do tumor, como o histórico familiar. A identificação de um caso na família deve deixar os demais em alerta porque podem existir outros. O uso de narguilé e cigarros eletrônicos pelos mais jovens também é um grande sinal de alerta.

A exposição à poluição do ar, ao gás radônio e ao amianto também são fatores de risco. Pessoas que trabalham com essas substâncias devem estar ir ao médico com periodicidade para realizar o acompanhamento. É importante salientar que mesmo os não fumantes precisam estar atentos a estes fatores, já que 20% dos casos de câncer pertencem a este grupo. O alerta é para a população geral.

O tratamento para o câncer de pulmão é eficaz? É possível identificá-lo nos estágios iniciais?

É possível identificar o câncer no estágio inicial com uma radiografia do tórax, juntamente com uma tomografia computadorizada. A análise clínica a partir da observação de sintomas como a tosse persistente, rouquidão e emagrecimento também auxiliam no diagnóstico. O tratamento é eficaz, só que depende do estágio da doença, por isso é tão importante a conscientização sobre o diagnóstico precoce.

Basicamente o tratamento consiste em radioterapia, quimioterapia e a cirurgia para a remoção do tumor. A detecção no estágio inicial, aliada ao tratamento adequado, pode proporcionar a cura ao paciente. Vale ressaltar que o tratamento é realizado por uma equipe multidisciplinar voltada para atender as demandas necessárias. No Brasil, temos a oportunidade de contar com o Sistema Único de Saúde (SUS).  Um da tecla que batemos sempre é a defesa do SUS como protagonista na promoção da saúde. Enxergamos que é a partir dele que será possível oferecer qualidade de vida a população, principalmente àqueles com pouco acesso a saúde.

Quais são os fatores de risco para a doença?

O cigarro é o principal fator de risco. Como dito anteriormente, a exposição ao tabagismo de forma passiva, a poluição do ar, a exposição ao gás radônio e ao amianto também são fatores de risco. A orientação é para os trabalhadores que lidam diretamente com as substâncias cumpram os protocolos de segurança e usem máscara de proteção. O histórico familiar também deve ser considerado. 

A pandemia teve impacto nos diagnósticos e tratamento da doença no Brasil?

A pandemia da Covid-19 modificou a nossa relação com a saúde. Por um lado, as pessoas adotaram um rigor maior com a higiene. Mas, em contrapartida, o medo da contaminação fez com que as pessoas deixassem de realizar consultas e exames. Um levantamento da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) revelou que 165 milhões de exames deixaram de ser realizados em 2020. Um número preocupante e que afeta diretamente o diagnóstico precoce do câncer. A prospecção é de um cenário catastrófico pós-pandemia. As pessoas que deixaram de realizar os exames e pararam de se consultar irão procurar o atendimento já com a doença em estágio avançado. Teremos que estar preparados para lidar com esse gargalo.


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