Cardiologista tira dúvidas no Dia Nacional de Prevenção e Controle do Colesterol

Você já deve ter ouvido frases como “esse alimento aumenta o colesterol” ou “estou com o colesterol alto”. O assunto é de tal importância que desde 2003 é observado no Brasil o Dia Nacional de Prevenção e Controle do Colesterol, sempre em 08 de agosto.

Segundo pesquisa da Sociedade Brasileira de Cardiologia, 40% dos adultos no Brasil têm nível alto de colesterol, enquanto 67% da população sequer sabe da situação dos seus níveis.  

Mas, então, como nós podemos evitar o descontrole dos níveis de colesterol? Quais são os fatores de risco e que hábitos podem nos ajudar a combater esse problema? Para responder a essas dúvidas, o Melodia News ouve hoje o Dr. Luiz Guilherme Velloso, cardiologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo.

Confira a conversa:

O que é o colesterol e qual a diferença entre o bom e o ruim?

Dr. Luiz Guilherme Velloso:
O colesterol é um lípide, ou seja, uma gordura. A maior parte dele é sintetizada pelo próprio organismo, e uma parte ingerida nos alimentos.

O colesterol é um constituinte importante das membranas celulares, dos ácidos biliares que ajudam a digerir gorduras, e do metabolismo das vitaminas lipossolúveis (vitaminas A, D, E e K). Ele é também um componente importante para a síntese de vários hormônios – como o cortisol, a aldosterona e os hormônios sexuais.

Embora seja indispensável para o bom funcionamento do organismo, o colesterol pode também se depositar nas paredes das artérias, formando as chamadas “placas de ateroma”, que obstruem o fluxo do sangue nesses vasos sanguíneos - e causam graves problemas circulatórios, como o infarto e o AVC (derrame).

No sangue, o colesterol é transportado pelas lipoproteínas, que podem ser de alta densidade (High Density Lipoprotein – HDL) e de baixa densidade (Low Density Lipoprotein – LDL). A lipoproteína de baixa densidade (LDL) deposita o colesterol nas placas de ateroma que obstruem as artérias, e por isto é conhecida como “colesterol ruim”. Já a lipoproteína de alta densidade (HDL) remove o colesterol dessas lesões, e em função disto é chamada de “colesterol bom”.

Quais são as principais causas do aumento dos níveis de colesterol?

Nas hiperlipidemias primárias, a causa é genética (herança familiar). Já as hiperlipidemias secundárias decorrem de alimentação inadequada (ingesta excessiva, principalmente de gorduras trans e alimentos ultraprocessados), de alterações causadas por outras doenças associadas (doenças renais e hepáticas crônicas, disfunções da tireoide e das suprarrenais, diabetes, etc.) ou pode estar associada ao uso de alguns medicamentos.

Quais são os problemas de saúde que o excesso de colesterol pode causar? Existem sinais que ajudam a percebê-los?

O nível elevado de colesterol na circulação, particularmente o colesterol-LDL, pode levar à formação da placa de ateroma, ou placa aterosclerótica, nas paredes das artérias. Isso resulta na obstrução da circulação em diversos locais do organismo – como as artérias coronárias (causando a angina e o infarto do miocárdio), artérias do encéfalo (levando ao AVC - acidente vascular cerebral, ou “derrame”), artérias dos rins, dos membros, da retina – resultando em sérios problemas de saúde. Estas ameaças podem ser detectadas por exame médico cuidadoso, antes que a obstrução à circulação se torne muito grave e comece a causar sintomas.

Como é o tratamento?

O tratamento inclui grande cuidado com os hábitos e estilo de vida, que abordaremos a seguir. Quando estas medidas não farmacológicas são insuficientes para corrigir o excesso de colesterol, usamos diversos tipos de medicamentos. Os mais comumente utilizados são as estatinas, que são bastante eficazes e seguras.

O excesso de colesterol está relacionado com a obesidade? Quais são os fatores de risco?

Os principais fatores de risco para a aterosclerose e as graves doenças circulatórias que ela acarreta são o tabagismo, a hipertensão arterial e o diabetes. A obesidade se associa fortemente à elevação do colesterol, da pressão arterial e a piora do diabetes, devendo ser combatida com rigor.

Que hábitos e estilo de vida as pessoas podem adotar para manter os níveis de colesterol em equilíbrio?

As mudanças alimentares e de estilo de vida devem ser recomendadas sempre, e mantidas mesmo quando se institui o tratamento medicamentoso para a hipercolesterolemia. Abandonar o cigarro favorece a elevação do “colesterol bom” (HDL), assim como a perda de peso e a prática regular de exercícios físicos. O consumo de quantidades modestas de álcool também contribui para elevar os níveis de colesterol HDL, mas não o suficiente para ser recomendado para quem não ingere bebidas alcoólicas.

Reduzir o consumo de alimentos ricos em gorduras trans e/ou saturadas tem efeito bastante importante, seja no aumento do colesterol HDL quanto na redução do “colesterol ruim” ou LDL. A ingestão de fitoesteróis (que são gorduras semelhantes ao colesterol, só que de origem vegetal) e fibras é bastante útil para diminuir o colesterol LDL, mas não tem efeito significativo no colesterol HDL.

Para evitar o aumento do colesterol, os alimentos mais indicados são carnes magras, grelhadas ou cozidas, leite desnatado, clara de ovos, frutas, verduras e legumes, castanhas e nozes em pequenas quantidades, além de fibras como aveia e trigo.

Devem ser evitados carnes com gordura aparente (alcatra, contrafilé, picanha), embutidos (salsicha, linguiça, bacon, torresmo), vísceras (fígado, rim, miolo, miúdos), pele de aves, peixes e porco, frutos do mar, gema de ovo, frios, leite integral, manteiga e queijos amarelos, biscoitos amanteigados, folhados, sorvetes cremosos e chantilly.