Manifestantes queimam igrejas católicas após descoberta de túmulos indígenas Cresce o clima de tensão no Canadá diante de acusações de genocídio cultural. Duas igrejas católicas foram incendiadas no Canadá, na última quarta-feira (30), em meio a pedidos para que o papa peça perdão pelos abusos cometidos em internatos indígenas. Mais 182 túmulos sem nome de povos originários foram encontrados em uma terceira instituição no país, aumentando a crise. No total, oito igrejas foram queimadas.

A polícia informou que os incêndios nas igrejas de Morinville, ao norte de Edmonton (Alberta), e San Kateri Tekakwitha, perto de Halifax (Nova Escócia), estão sendo investigados como possíveis ataques.

"Estamos investigando como [eventos] suspeitos", afirmou à AFP o cabo Sheldon Robb, da Royal Canadian Mounted Police (RCMP), sobre o incêndio que atingiu a igreja de Morinville.

Os protestos continuaram nessa sexta-feira (2) com manifestantes derrubando duas estátuas, das rainhas Vitória e Elizabeth 2ª, no Canadá. Parte da população aplaudiu quando as estátuas, instaladas em Winnipeg, capital de Manitoba, vieram abaixo. Apesar de o protesto ter sido pacífico, a mídia local diz que a polícia usou uma arma de choque para prender um dos manifestantes.

A queda das estátuas ocorreu durante as celebrações do Dia do Canadá, realizadas anualmente em 1º de julho, para marcar a fundação do país pelas colônias britânicas, em 1867.

O primeiro-ministro Justin Trudeau disse em uma entrevista coletiva que as "assustadoras descobertas" dos túmulos sem nome obrigam os canadenses "a refletir sobre as injustiças históricas e contínuas que os povos indígenas enfrentaram.”

Trudeau solicitou a todos a participarem da reconciliação, do mesmo modo que denunciou o vandalismo e o incêndio de igrejas em todo o país.

"A destruição de locais de oração não é algo aceitável e deve parar", declarou.

"Devemos trabalhar juntos para corrigir os erros do passado. Todos têm um papel a cumprir", ressaltou.

Também na quarta-feira, um grupo de especialistas localizou o que acredita serem os corpos de alunos entre sete e 15 anos na antiga Escola St. Eugene's Mission, perto de Crankbrook, na Columbia Britânica, disse Lower Kootney Band em nota.

A nova descoberta ocorre depois que foram encontrados em maio os corpos de 215 crianças em sepulturas sem identificação na antiga Escola Residencial Indígena de Marieval, em Saskatchewan.

A comunidade indígena de Lower Kootenay disse que no ano passado foi iniciada uma busca nos terrenos de Cranbrook, onde a Igreja Católica administrou uma escola em nome do governo federal desde 1912 até o início da década de 1970.

Acredita-se que são os corpos de membros de vários grupos da nação Ktunaxa, que inclui a Lower Kootenay e outras comunidades indígenas vizinhas.

Há denúncias de que até a década de 1990, cerca de 150.000 jovens indígenas, inuítes e mestiços foram matriculados à força em 139 dessas escolas residenciais, onde os estudantes foram abusados física e sexualmente por diretores e professores, que os separaram de sua cultura e idioma.

Mais de 4.000 morreram por doenças e negligência nesses internatos, segundo uma comissão de investigação que concluiu que o Canadá cometeu um genocídio cultural.

Na sexta-feira passada, Trudeau se desculpou pela "política governamental prejudicial" e se juntou aos pedidos dos líderes indígenas para que o papa Francisco compareça ao Canadá para se desculpar por esses abusos.

A Federação de Nações Indígenas Soberanas, que representa 74 povos indígenas em Saskatchewan, pressionou a Igreja para cumprir sua promessa de indenizar ex-alunos com US$ 20 milhões (cerca de R$ 100 milhões).

A Igreja arrecadou e doou apenas C$ 34.650 (US$ 27.950 ou cerca de R$ 140 mil), informou em um comunicado.

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