Plástico oferece risco não só a ambiente e outros animais, mas também para nós, alerta especialista

Não é de hoje que o plástico virou um dos grandes vilões da preservação do meio ambiente. De acordo com um estudo da revista Science Advances, mais de 8,3 bilhões de toneladas do material foram produzidas entre 1950 e 2015, enquanto que apenas 9% desse total foi reciclado de alguma forma. O cenário levou a uma verdadeira guerra declarada por diversos países contra o uso e o descarte do material, que já conta com a participação da ONU (Organização das Nações Unidas) e da União Europeia.

Sobre isso, o Melodia News ouve hoje a bióloga Francyne Elias-Piera, mestre em Oceonografia Biológica pela USP e Doutora em Ciência Ambiental pela Universitat Autònoma de Barcelona. Desde 2000 ela realiza pesquisas na Antártica, e fundou, em 2010, o Instituto Gelo na Bagagem, para incentivar a formação de novos pesquisadores antárticos no Brasil, México e Chile por meio de palestras e cursos.

A especialista alerta que os riscos relacionados ao plástico vão muito além das clássicas imagens de animais marinhos sufocados com sacolas e outros produtos feitos do material, sendo uma preocupação direta também para a nossa saúde.

Confira:                                                                                                                  

Por que o plástico se tornou o grande vilão da preservação ambiental?

Francyne Elias-Piera: O plástico é o grande vilão da preservação ambiental porque ele foi criado para ser um produto durável e barato, mas a gente tem usado plástico para coisas de uso único. Então, uma garrafinha que foi criada para durar quinhentos anos, ela está sendo usada uma única vez, sendo jogada no lixo e chega no meio ambiente, chega no oceano e está lá se acumulando por anos e anos, e mais plástico... para a gente saber, em média, estão sendo criadas, hoje em dia, 20 mil garrafinhas de água por segundo no mundo. Então, imagina o quanto que isso vai acumular no ambiente!

Quando nós pensamos em plástico poluindo os oceanos, o que vem à cabeça são imagens dos animais que o ingerem por engano. Mas muito se fala também sobre os microplásticos. Esse material pode fazer o caminho inverso e oferecer riscos aos seres humanos?

Sim, o plástico, hoje em dia, a gente tem dois perigos. Esse plástico grande poluindo o oceano, matando os animais sufocados, e também o microplástico, que está na água do mar. O sal que vem do mar está sendo poluído com microplástico, então, quando a gente come sal, a gente está ingerindo microplástico, quando a gente bebe água, também estamos ingerindo microplástico, quando a gente respira também, porque o microplástico está no ar. Ou quando a gente abraça uma pessoa que está usando uma roupa de tecido sintético, que é um tipo de plástico, muitas vezes, ao abraçar, os fiapos acabam saindo da roupa e a gente acaba respirando isso. 

Então, isso faz muito mal para nós, seres humanos, e, também, o microplástico, voltando ao oceano, ele fica na água, boiando. Alguns animais filtram o que tem na água e acabam ingerindo esse microplástico, os peixes comem esses pequenos animais e nós comemos o peixe. E o microplástico é tão pequeno que, muitas vezes, ele passa para a corrente sanguínea do peixe e acaba chegando na gente, também passando para a nossa corrente sanguínea.

Já há alguns anos nós já ouvimos sobre os benefícios de diminuir o uso, por exemplo, de sacolas e canudos plásticos. Além dessas, que outras mudanças na rotina podem contribuir para mudar esse cenário?

As outras mudanças na nossa rotina, tentar voltar aos tecidos mais naturais, como algodão, usar, por exemplo, xampu e condicionador que não venham em embalagens de plástico, hoje em dia tem muito xampu e condicionador em barra, que vem embalado em papel, não vem em plástico; tem algumas empresas também que oferecem o refil para a gente utilizar aquela embalagem mais vezes, colocando creme, por exemplo; e também a reciclagem. Na verdade, a principal mudança na nossa rotina é começar a melhorar ainda mais a reciclagem.

O plástico biodegradável é uma alternativa interessante?

Plástico biodegradável não é uma boa alternativa. Materiais biodegradáveis são aqueles materiais que são feitos da matéria-prima como mandioca, bambu, cascas de algum outro vegetal e tudo... então, isso é biodegradável, porque ele vai se degradar e voltar ao ambiente como um nutriente, alguma coisa. O plástico biodegradável vai se desintegrar, ele vai se desfazer em micropedacinhos, mas vai continuar sendo plástico e vai formar ainda mais microplásticos no ambiente, no ar, no oceano.

Você pode falar um pouco sobre o Instituto Gelo na Bagagem? Qual é o objetivo do projeto?

O Instituto Gelo na Bagagem nasceu com o objetivo de ensinar as pessoas sobre a Antártica. Eu sou pesquisadora antártica há vinte anos, e eu queria trazer o meu conhecimento da Antártica e falar sobre as minhas pesquisas para as pessoas em geral, para que elas conheçam um ambiente que é muito importante para o nosso planeta, para a gente, principalmente nós aqui brasileiros, mas que muitas pessoas não conhecem e não entendem o porquê a gente faz pesquisa por lá.

Então, eu criei primeiro o canal no YouTube, o perfil no Instagram, que tem várias notícias, várias curiosidades sobre a Antártica, relacionada com o oceano, com outros ambientes, para a gente conseguir fazer e entender essa relação. E, hoje em dia, então, o Instituto tem, além do YouTube e do Instagram, cursos e palestras que eu dou sobre a Antártica.