Evangélica pode ter sido morta em ritual macabro

O promotor André Luiz de Pinho foi denunciado pelo Ministério Público de Minas Gerais pela morte da mulher, Lorenza de Pinho. O crime ocorreu no dia 2 de abril em Belo Horizonte/MG. Ela pode ter sido assassinada em um ritual macabro, segundo fontes ligadas à investigação. O órgão afirma ter provas suficientes de que ele cometeu o crime sozinho.

A falta de sangue no corpo de Lorenza intriga os investigadores. Ela não foi explicada pelo laudo da necropsia. O legista só conseguiu extrair 25 ml para fazer os exames toxicológicos e de dosagem de álcool.

“Uma mulher normal, de um peso normal, (tem) uma média de cinco a cinco litros e meio de sangue no corpo”, disse o legista Marcelo Mares Castro.

Na agenda do promotor foram encontrados dois contatos de cursos de tanatopraxia, técnica de conservação de cadáveres que consiste na troca do sangue por substâncias sintéticas. Em depoimento, ele negou ter feito esse curso.

A pedido do Ministério Público, a Polícia Civil também analisou se o casal frequentava algum local destinado à prática de atividades religiosas.

A defesa nega que André tenha feito algum procedimento no corpo de Lorenza que ficou no apartamento durante 6h30 até a chegada da equipe médica. Ele segue preso.

Relacionamento tóxico

Lorenza e André eram casados há 17 anos e tinham 5 filhos. Em um diário, Lorenza apresenta relatos sobre depressão e até mesmo tentativas de suicídio. Ela afirma que uma vez se trancou com a arma do marido dentro banheiro com o chuveiro ligado e pensou em tirar a própria vida.

Lorenza relata no diário muita solidão e um relacionamento conturbado. Em um trecho ela diz: “Sinto-me sozinha. Você [marido] está fechado, não abre um sorriso, não me abraça ou me beija. Há cinco meses não transamos, não escuto palavras doces ou de conforto. Você está corrigindo meu jeito de falar a todo momento. Você critica até o que falo. Acabou, né?”.

No depoimento à polícia, André afirmou que os dois possuíam bom relacionamento e que a mulher ficou deprimida após a morte da mãe em 2011.

“Ela tentou pular da janela do banheiro do prédio. Tomou vários medicamentos. Começou a cortar a rede de proteção. Outra vez ela se trancou no banheiro com minha arma. Uma vez ela praticamente parou de comer e chegou a pesar 48kg”, diz.

Religião

Os diários de Lorenza também apontam uma suposta briga religiosa entre a mulher e André. Os dois se apresentavam como evangélicos para a sociedade, mas os diários de Lorenza apontam que houve uma ruptura entre eles. Ela fala em um trecho: “Pedi a Jesus Cristo em oração o bloqueio do meu corpo para receber qualquer entidade. Eu não quero e não vou mais ceder meu corpo físico para isso”.

Em depoimento à força-tarefa, André afirmou que os dois eram cristãos. “Acreditamos em Jesus Cristo. Em 2011, na época que a mãe dela adoeceu, passamos a frequentar a Igreja Batista da Lagoinha.”

No entanto, a força-tarefa encontrou no celular de André alguns elementos ligados a religiões de matriz africana, como o contato de um pai de santo que tem um centro na região de Venda Nova e também anotações no calendário com termos relacionados às fases da lua. Interrogado sobre isso no depoimento, André de Pinho disse que seria uma pesquisa para um livro que estava escrevendo sobre a tragédia de Brumadinho.

Prisão

O promotor André de Pinho, que está preso em um batalhão do Corpo de Bombeiros, em Belo Horizonte, foi denunciado por homicídio qualificado como feminicídio, considerando o cenário de violência entre marido e mulher.

Houve, ainda, os agravantes de motivo torpe, asfixia e recurso que dificultou a defesa da vítima, já que o laudo do IML apontou que Lorenza sofreu envenenamento.

A pena prevista para feminicídio é de, no mínimo, 12 anos e pode chegar a até 30 anos de prisão.