Entrevista: apesar de “boom” no início, doações caíram muito durante a pandemia

A pandemia da Covid-19 vem causando estragos em diferentes populações, especialmente quando pensamos na doença em si, mas desde o início da crise sanitária ficou muito claro que tratava-se também de uma crise econômica humanitária. Com mais desemprego e menos comida na mesa, cresceu muito a demanda por doações, acompanhadas no início por um “boom” de doações. Com o tempo, no entanto, essa ação solidária vem sofrendo com uma queda, até pela dificuldade financeira dos doadores.

Para conversar sobre esse e outros aspectos das ações de voluntariado durante a pandemia, o Melodia News ouviu representantes da ONG NAAÇÃO, que auxiliou as vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho no ano de 2019, e agora também oferece ajuda às famílias impactadas pela Covid-19 por meio da plataforma AMPARO.

Confira como foi:

Primeiro, você pode falar sobre o NAAÇÃO? Como surgiu e qual é a missão do projeto?

Somos uma ONG de Belo Horizonte (MG) e tudo começou com foco no desenvolvimento de lideranças sociais. Há cerca de 4 anos, começamos esse movimento e nossas ações nos levaram até Brumadinho para ajudar as vítimas do rompimento da barragem, em janeiro de 2019.

Além disso, em conjunto com as lideranças locais de cada comunidade, promovemos soluções eficazes para combater a falta de assistência médica, a fome, a vulnerabilidade e ainda fornecer mais recursos para a educação. Assim, trabalhamos em regiões onde as pessoas vivem em condições de vulnerabilidade social com objetivo de oferecer meios e recursos que proporcionem impacto positivo direto às famílias necessitadas. Temos como missão acolher e desenvolver, com senso de urgência, comunidades em situações de crise humanitária, de mãos dadas com lideranças sociais, para transformarmos vidas e, para conseguirmos isso, temos hoje dois projetos principais em funcionamento.

O Cozinha-Escola, desenvolvido em Brumadinho, tem como foco ajudar mulheres vítimas das duras consequências do rompimento da barragem da Vale a se reerguer e serem donas dos próprios destinos. Além disso, no início da pandemia, desenvolvemos a plataforma AMPARO (amparo.naacao.com.br), que é uma ferramenta online, com o objetivo de auxiliar às famílias que vivenciam os impactos sócio econômicos da crise da Covid-19, as famílias podem se cadastrar solicitando AMPARO com doações de alimentos, itens de higiene e limpeza, e prevenção à Covid-19, além de suporte psicológico oferecido gratuitamente por nossa equipe de psicólogos voluntários. Todo apoio psicológico é gratuito e online para comunidades vulneráveis de todo o Brasil. Também, oferecemos apoio às mulheres vítimas de violência doméstica, realidade que se agravou ainda mais após o início da pandemia.

Qual é a importância das ações solidárias, especialmente no momento em que vivemos?

Chegamos à marca de 300 mil vidas perdidas pela pandemia do coronavírus, em apenas um ano. Mães, pais, irmãos, familiares e amigos, hoje choram por essas perdas! Mas, para além do que estamos assistindo todos os dias pela televisão e sentindo na pele, a pandemia também trouxe consequências invisíveis: a fome, a violência e o agravamento das desigualdades. Neste momento, essas famílias pedem socorro. O grito é silencioso, mas é mais do que verdadeiro. Precisamos, hoje, mais do que nunca, ser solidários! Pessoas estão sem trabalhar, sem ganhar dinheiro, sem ter o que comer. Mães estão dando água morna para disfarçar a fome do filho que não tem leite para saná-la!

Olhando para o outro lado, como o voluntariado pode ajudar no crescimento pessoal dos voluntários?

O voluntariado proporciona experiências múltiplas, desde conhecimentos e aprofundamentos voltados para as áreas profissionais, tanto como para questões pessoais. Em nossa instituição, prezamos pela oportunização de todos e nossos voluntários podem transitar entre as áreas de atuação visando crescer e se aprimorar. Além disso, o contato com outras realidades sociais proporciona incontáveis aprendizados, e nos dá a oportunidade de levar sorrisos e preencher lacunas com esperança.

Muita gente acredita que o voluntariado é para poucos ou para grupos específicos. O que você diria sobre isso?

Diria que é exatamente o contrário. O voluntariado vai muito além do que a realização de ações pontuais e assistenciais. Aqui no NAAÇÃO, por exemplo, muitos voluntários oferecem o tempo e a expertise que já possuem profissionalmente, para ampliar o impacto do nosso trabalho.

Nós estamos vendo muitos projetos e ações solidárias em evidência durante a pandemia, mas, ao mesmo tempo, cada vez mais pessoas estão precisando de ajuda. O volume de doações está acompanhando esse crescimento?

Na verdade, não. Como em grande parte das crises humanitárias, no início da pandemia vivemos um “boom” de doações, mas, agora, esse volume baixou consideravelmente. Muito pelo momento em que os parceiros e doadores também estão sendo economicamente afetados e pelo fato de que normalmente as áreas de responsabilidade e assistência social das empresas privadas são as primeiras a receber cortes significativos em função da crise.

No geral, o Brasil aparece muito atrás de outras grandes nações quando se fala na parcela da população que realiza trabalho voluntário. Como nós podemos mudar essa realidade?

A divulgação é parte essencial para conseguirmos voluntários e parceiros. Não somente divulgar as oportunidades de voluntariado ou as demandas para captação, mas também os resultados de impacto e os objetivos do trabalho, pois estes traduzem as ações e revelam a transparência e idoneidade das instituições. Para além disso, o voluntariado precisa fazer parte da base comum curricular educacional, precisamos estimular nossas crianças, adolescentes e jovens a desenvolver um olhar de empatia, respeito, parceria e humanidade. Dentre outras ações acreditamos que o voluntariado deveria ser um diferencial na carreira profissional, viabilizando novas aprendizagens e experiências, na perspectiva da complementação da carreira profissional.

E onde o público pode encontrar o NAAÇÃO?

Em nosso site naacao.com.br, pelas nossas redes sociais como Instagram @naacao, LinkedIn www.linkedin.com/company/naacao/ e Facebook naacaobh. Também via WhatsApp (31) 99197-3535 ou pela plataforma AMPARO (amparo.com.br).