Abril Marrom: saiba porque é importante ir ao oftalmologista mesmo na pandemia No calendário da medicina, este é o mês do Abril Marrom, a campanha nacional que visa conscientizar a população para a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento correto das doenças oculares que podem causar diversas formas de cegueira. E para manter os olhos saudáveis, é indispensável fazer a consulta de rotina ao oftalmologista, até mesmo em meio à pandemia da Covid-19, seguindo, evidentemente, todos os protocolos de segurança que diminuem o perigo de contágio pelo Sars-CoV-2. Ademais, a Covid-19, por si só, é um risco para a visão, já que pode ocasionar conjuntivite, atacar a retina e demais estruturas dos olhos. Outro benefício da visita ao oftalmologista é a possibilidade de, durante os exames, o especialista detectar sinais de doenças não oculares.

Em adultos, as principais causas de diferentes tipos de cegueira são: catarata (perda de transparência da lente natural do olho, o cristalino, e a primeira causa global tratável de cegueira), glaucoma (decorrente da elevada e constante pressão intraocular e motivo número um de lesão irreversível à visão), retinopatia diabética (efeito do diabetes não tratado, que agride a retina, órgão que transforma o estímulo luminoso em nervoso para formar as imagens no cérebro), degeneração macular (destrói a área central do olho, sendo prevalente na terceira idade) e tracoma (conjuntivite crônica devido à infecção pela bactéria Chlamydia trachomatis). Além dessas doenças, erros refrativos sem correção (miopia, astigmatismo e hipermetropia) – que podem ser diagnosticados na infância – são condições que podem levar à perda de visão.

O documento “As Condições da Saúde Ocular no Brasil” (2019), lançado pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), estima em 1.577.016 a prevalência de cegueira na população brasileira (208.494.900, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE), somando crianças, adolescentes e adultos, sendo 859.416 (nas classes B e C), 543.600 (na faixa mais pobre) e 174.000 (no grupo rico). E, segundo o CBO, 82% dos cegos no país são idosos acima de 70 anos. Contudo, 80% dos casos poderiam ter sido evitados com o diagnóstico prévio e o tratamento adequado. Ainda conforme o levantamento, são 76 milhões de cegos em todo o mundo. Para cada pessoa cega, existem, em média, 3,4 com baixa visão (deficiência moderada a grave).

Sendo assim, “prevenir é a melhor atitude”, diz o oftalmologista Bruno Machado Fontes, diretor das Clínicas Lúmmen Oftalmologia (empresa do grupo Opty), presidente da Associação Brasileira de Catarata e Cirurgia Refrativa e coeditor da Revista Brasileira de Oftalmologia. O olho é parte do sistema nervoso central e, portanto, não se regenera. Se o indivíduo, de qualquer idade, desenvolver alguma doença ocular e passar meses sem consultar o oftalmologista, o quadro pode se agravar, às vezes de forma irreversível.

“Os cuidados com os olhos não podem parar, inclusive na atual pandemia. O oftalmologista tem uma janela para tratar certas situações, principalmente doenças como degeneração macular, glaucoma, danos vasculares na retina e do nervo óptico, estrabismo em crianças, catarata ligada a um tipo de glaucoma, entre outras mais preocupantes. Sair de casa, vale lembrar, é sempre um risco para o contágio pelo Sars-CoV-2. Porém, o perigo de ir ao consultório do oftalmologista é muito menor que, por exemplo, fazer compras em um supermercado. A clínica ou hospital de oftalmologia é um ambiente controlado, seguro, com poucas pessoas. Os atendimentos em nossas unidades são realizados seguindo os rígidos protocolos do CBO e de segurança de prevenção da Covid-19. Nosso centro cirúrgico tem o selo Einstein Padrão de Qualidade e Segurança, que certifica instituições que seguem rigorosamente as medidas contra o novo coronavírus”, esclarece Fontes.

E o zelo com a vista deve começar ainda no pré-natal, quando o especialista pode diagnosticar e monitorar doenças nas gestantes que colocam em risco a visão do feto, como toxoplasmose, sífilis e herpes. No pós-parto, os recém-nascidos precisam ser submetidos ao teste do olhinho, essencial para investigar males que exigem tratamento urgente, tais como catarata congênita (de maior incidência em bebês cujas mães tiveram infecção) e glaucoma congênito (um sinal é a fotofobia), além do retinoblastoma (tumor na retina). Por volta dos dois aos três anos de idade, recomenda-se nova consulta, se não houver suspeita de qualquer problema ocular prévio. Na pré-escola (dos 4 aos 6 anos) e na segunda infância (dos 6 anos até a puberdade), as crianças devem ser levadas novamente ao oftalmologista, porque nessa fase são comuns os casos de miopia, astigmatismo e hipermetropia.

Para indivíduos sem queixas oculares até os 20 anos, a periodicidade da consulta ao oftalmologista pode ser uma a cada três ou cinco anos, consoante a Academia Americana de Oftalmologia. “Se a pessoa tem alguma alteração na vista, a periodicidade dependerá de cada caso”, explica Fontes. A partir dos 50 anos, a orientação é uma consulta em intervalo de um ou dois anos, porque nessa faixa etária geralmente é possível fazer diagnósticos de doenças assintomáticas no início, como glaucoma ou catarata (relacionada ao envelhecimento). Pacientes com alta miopia (aumenta o risco de descolamento de retina) e hipermetropia (maior probabilidade de glaucoma) também necessitam de exames frequentes.

“Não raro, em um exame oftalmológico o especialista encontra sinais de doenças em outros órgãos, como, por exemplo, diabetes, hipertensão, esclerose múltipla, hipertensão intracraniana, excesso de gorduras no sangue, anemia falciforme, linfoma, cânceres (alguns, como mama, podem ter metástases no olho), insuficiência renal e hepatite”, adverte Fontes.

Com relação à Covid-19, Fontes lembra que os olhos são uma das principais portas de entrada do Sars-CoV-2. Sua transmissão pode ocorrer pelo contato com a lágrima de uma pessoa infectada. De acordo com a Academia Americana de Oftalmologia, o novo coronavírus pode provocar conjuntivite (irritação ou inflamação da conjuntiva, a membrana transparente que recobre a parte branca do olho) em 1 a 3% dos contaminados. E um estudo brasileiro realizado com 104 pacientes internados (em UTIs e enfermarias) com Covid-19, liderado pelo doutor Rubens Belfort Jr., professor titular de oftalmologia da EPM/Unifesp e presidente da Academia Nacional de Medicina (ANM), observou que o novo coronavírus pode agredir seriamente a retina (gerando microtrombos e hemorragias) em 20% dos indivíduos com quadros graves.

Outros estudos mostraram que o Sars-CoV-2 também pode atacar a úvea, conjunto de estruturas que inclui a íris, a parte colorida do olho, e mais: inflamar a córnea e o nervo óptico (ainda produzir inchaço, papiledema), gerar fotofobia e ressecar os olhos. Daí a importância do uso correto de máscaras ou face shields, lavar frequentemente as mãos ou fazer a higiene com álcool 70%, evitar tocar o rosto e, no caso de usuários de óculos e/ou lentes de contato, redobrar a atenção com a limpeza diária desses acessórios, para atenuar o perigo de contaminação.

A campanha Abril Marrom foi criada há cinco anos por iniciativa do oftalmologista e professor Suel Abujamra, ex-presidente do CBO. O quarto mês do ano foi escolhido porque celebra o Dia Nacional do Sistema Braille, no dia 8 de abril. E a cor marrom por ser a de maior incidência na íris da população brasileira.