Pandemia aprofundou desafios para o acesso à educação no Brasil, explica especialista

A pandemia da Covid-19 impôs diversos desafios à população mundial, que vão muito além da triste realidade imposta pelo coronavírus à saúde dos cidadãos. Os impactos econômicos também são bastante apontados, mas, em um país tão desigual quanto o Brasil, o acesso a direitos básicos como a educação, ficam ainda mais ameaçados, especialmente quando falamos em inclusão digital e adesão ao ensino remoto. A consequência mais evidente é o abandono dos estudos, mas os impactos a longo prazo para os jovens e para o país também podem ser pesados.

Para entender melhor esse cenário, o Melodia News ouviu a advogada Paula Vianna, que tem mais de 30 anos de experiência no mercado jurídico e, desde 2015, é Diretora Executiva da Associação Parceiros da Educação RJ, onde coordena a implementação e o monitoramento de projetos voltados à melhoria da educação pública em escolas municipais, tendo entrado para o projeto para apoiar a escola pública onde os irmãos estudaram.

Confira a conversa:

De acordo com o Datafolha, 4 milhões de alunos brasileiros abandonaram os estudos durante a pandemia. Quais são as principais consequências da evasão escolar para esses estudantes e para a sociedade brasileira?

Paula Vianna: A evasão aumenta ainda mais o fosso de desigualdade entre estudantes no país, tanto em formação, quanto nas oportunidades de inserção no mercado de trabalho. Os jovens que deixam a escola perdem empregabilidade, ao menos em atividades que demandem alguma qualificação.

Um dos motivos listados para o alto índice de evasão foi a dificuldade de acesso à tecnologia necessária para o aproveitamento do ensino à distância, especialmente entre as classes mais pobres. Esse cenário pode aprofundar ainda mais essa desigualdade?

Certamente, pode aprofundá-la. Estudo "TIC Domicílios 2019", do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic), mostrou em 2020 que cerca de 30% dos lares no Brasil não tinham acesso à internet.

Em um cenário de ensino remoto, este percentual já deixa claro que uns terão acesso a conteúdos pedagógicos, enquanto muitos outros ficarão à margem deste conhecimento.

A partir da observação desta nova forma de desigualdade, nos engajamos com outras organizações voltadas à Educação pública, e criamos a campanha Educação + Digital, para arrecadar e doar tablets com acesso à internet para escolas públicas cariocas.

A abstenção no Enem 2020 também foi alta, ultrapassando os 50%. O Brasil corre o risco de sofrer uma falta de mão de obra qualificada nos próximos anos?

Esta, sem dúvida, é uma das prováveis consequências da evasão escolar. Fora do ambiente de educação, e precisando buscar seu sustento e ajudar no da família, este jovem não tem outra opção que não abraçar a primeira oportunidade que apareça, normalmente algo que não demande qualquer qualificação. A médio prazo – e somando-se os largos percentuais de evasão no Brasil -, sem dúvida o mercado sofrerá de carência de mão de obra preparada ou especializada.

Além da doença em si, a pandemia também impactou profundamente a economia. O cenário de dificuldade financeira das famílias pode estender o problema da evasão dos estudos mesmo com um controle e eventual fim da pandemia?

Antes da pandemia, a educação pública no Brasil já enfrentava o problema do abandono escolar de muitas crianças e jovens, pelos mais diversos motivos. E, infelizmente, passada a turbulência da covid-19, este problema estará longe de ser resolvido. Além das dificuldades surgidas na esteira da doença – como o aumento do desemprego e a queda na renda de boa parte da população brasileira -, concorrem para que o quadro do abandono escolar se torne ainda mais agudo questões como a falta de professores nas escolas públicas e a própria migração de crianças de escolas particulares para as públicas, em decorrência da perda de poder de consumo de seus responsáveis.



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