Como fica o planejamento financeiro na pandemia? Especialista fala sobre endividamento e reservas

Depois de um período de recuperação, a pandemia da Covid-19 abalou profundamente a economia brasileira desde o início de 2020, contribuindo para uma disparada do desemprego e da inflação. Com isso, muitas famílias se viram em um cenário de extrema dificuldade financeira, em muitos casos resultando em endividamento.

Para entender melhor os caminhos para a recuperação das famílias, o Melodia News ouviu hoje Luiz Henrique Garcia, advogado formado pela PUC-PR, que atuou por 10 anos no ramo do direito bancário, com ênfase em recuperação de crédito. Luiz é também cofundador da ‘Quite.Já’, plataforma de cobrança que oferece alternativas de recuperação de crédito para os credores e devedores, tornando essa relação mais dinâmica e saudável.

Confira a conversa.

Quais são os pilares ou os pontos principais que as famílias têm que ter em mente para começar a organizar sua situação financeira?

Luiz Henrique Garcia: Eu penso que o principal fator nas famílias é exatamente se reinventar. Historicamente, o brasileiro primeiro gasta e depois, se sobrar alguma coisa, guarda, quando o movimento tem que ser exatamente o inverso. Primeiro, é importante que as pessoas conheçam sua real necessidade de consumo, e aí sim, guarde o recurso e consuma essa diferença. É o movimento inverso, é o movimento mais inteligente, e que faz com que as pessoas se organizem, criem reserva de emergência para um momento de dificuldade como o que a gente está atravessando agora. 

Um quadro que já era a realidade de muitas famílias brasileiras e se agravou durante a pandemia foi a situação de endividamento. Como essas famílias, que muitas vezes possuem uma renda limitada, conseguem sair dessa situação?

O endividamento, de fato, é uma situação grave que atinge mais da metade das famílias brasileiras. Mas, de novo, acho que se reinventar aqui em cada um é o passo mais importante quando a gente fala de educação financeira. Educação financeira não faz parte da base do brasileiro, diferente de países de primeiro mundo. Mas quando a gente está falando de endividamento, que é uma situação que já chegou no seu limite, o passo mais importante para as pessoas é buscar uma negociação.

Mais da metade das pessoas que não fizeram nenhum negócio até hoje, salvo aqueles que estão sem capacidade de desembolso, não fizeram porque desconhecem as possibilidades de negociação que têm. Ou seja, por exemplo, que ela tem uma dívida de R$ 5 mil, ela acredita que tem que pagar R$ 5 mil, o que não é uma verdade. A gente acompanhou que, no último ano, os bancos e as redes varejistas de forma geral foram extremamente flexíveis em buscar uma negociação com cada pessoa, conhecer, de fato, a capacidade de desembolso de cada um e adequar essa negociação a isso, nem sempre a negociação à vista vai ser a melhor, cada um tem a sua realidade. E conhecer isso é o principal passo para você renegociar.

Muitas famílias veem no cartão de crédito um aliado para fazer compras ou despesas com valores que ultrapassam o dinheiro que sobra no mês, como uma nova geladeira ou uma obra necessária, por exemplo. Quais devem ser os cuidados nesses casos para a situação não sair do controle?

O cartão de crédito é uma ferramenta super importante para o comércio de forma geral, e as pessoas têm ali uma alternativa de negociação, de parcelamento sem juros, o que é extremamente atrativo, só que aí também mora o perigo. Uma fatia muito significativa, hoje, das famílias brasileiras considera o cheque especial e o cartão de crédito uma extensão da sua renda, o que é muito perigoso, porque são operações que têm uma caga de juros muito elevada. Então, se você não tomar cuidado, a taxa média de juros, hoje, do cartão de crédito, por ano, é 320%, podendo chegar a mais de 800% em alguns casos. Então, as pessoas têm que utilizar ele, mas com parcimônia, é a questão do consumo consciente. Você fazer um parcelamento não tem problema desde que você saiba qual é a sua capacidade de pagamento mensal, porque você pagar um rotativo desse cartão pode gerar um prejuízo muito maior futuramente.

Algumas famílias possuem o hábito de guardar dinheiro, enquanto outras não conseguem segurar os recursos. Qual a importância de se fazer uma reserva de emergência? E de quanto deve ser a reserva?

A questão de emergência ganha muita relevância. Situações como as que a gente tem atravessado, principalmente nesse último ano, mostram o quanto isso é importante, especialmente em situações que a gente tem uma redução muito drástica de receita ou até mesmo desemprego, faz com que as pessoas tenham um alento, um respiro durante um tempo, pelo menos. E sobre esse tempo, a gente fala que varia bastante, vai muito da realidade de cada um, mas [o valor necessário para] 3 a 6 meses é um tempo inteligente. Acho que a cultura do hábito de guardar dinheiro precisa ser mais forte no brasileiro, de novo, a gente volta na tecla da educação financeira. É preciso que você compreenda, de fato, qual é o consumo consciente, qual é o consumo necessário, e aí sim, baseado nisso, fazer sua reserva, sua guarda de recurso, e não gastar com formas supérfluas como muitas vezes a gente faz. Então, você ter essa reserva vai te dar um pouco de tranquilidade em momentos de dificuldade.

Hoje, no imaginário das famílias de renda mais baixa, o ato de investir dinheiro está muito associado a pessoas ricas. O que você acha disso? É possível investir com pouco?

A questão do investimento para a população de forma geral é um tabu. Primeiro que muitas vezes ela não sabe onde investir, e segundo que ela acha que é coisa de pessoas ricas, como você comentou. Mas não é o caso. A gente sabe que, hoje, até mesmo em bolsa de valores você consegue fazer investimentos a partir de R$ 10, e ali você tem uma alternativa muito mais rentável do que é caderneta de poupança, CDBs, enfim, cada um conhece sua realidade. A gente precisa quebrar esse tabu, porque guardar dinheiro e investir dinheiro têm que fazer parte da rotina do povo, têm que fazer parte da educação financeira de cada um. Quebrando alguns tabus como esse é um passo super relevante.