Pastor e padre se unem contra onda de violência em Mianmar

A exemplo do que já havia ocorrido em pelo menos duas oportunidades com religiosas, o padre Celso Ba Shwe e um pastor protestante se posicionaram entre manifestantes e policiais, implorando aos agentes para deter o avanço e não atirar. “Vamos convencê-los a voltar para casa. Deem-nos um pouco de tempo. Não queremos que sangue banhe nossa terra", implorou o padre Celso Ba Shwe aos policiais.

Na cidade de Loikaw, capital do estado de Kayah, centenas de jovens manifestantes saíram às ruas na terça-feira (09), em direção à Catedral Cristo Rei. As forças policiais bloquearam, preparando-se para o confronto com os manifestantes contra o golpe militar de 1° de fevereiro.

A tentativa de mediação surtiu efeito: os militares dispararam tiros de advertência e granadas de atordoamento para dispersar a multidão, sem causar vítimas. “Cada vida é preciosa. Isso é o que queremos dizer hoje com nossa ação que se inspira somente na fé", afirmou o padre.

Gesto semelhante já havia sido feito por religiosas da cidade de Myitkyina, capital do estado de Kachin, onde nos últimos dias houve forte repressão policial contra jovens manifestantes, que se refugiaram no complexo da Catedral. “Pedimos para não matar. Por isso nos dirigimos aos militares. Temos medo que os policiais matem os jovens manifestantes. Nossa presença como pessoas de fé, agentes de paz, pode ajudar a fazê-los desistir. Por isso estamos aqui na rua".

No dia 8 de março, dois jovens manifestantes foram mortos, mais de 7 feridos e a polícia, que cercou a catedral, fez 91 prisões durante a noite, conforme informam fontes locais. As freiras e o bispo emérito, dom Francis Daw Tang, saíram às ruas para tentar acalmar os ânimos e persuadir a polícia a não usar de violência contra os jovens desarmados.

A junta militar ordenou medidas repressivas cada vez mais fortes nas ruas, enquanto vários meios de comunicação independentes foram tirados de circulação, e teme-se agora, que a qualquer momento, a junta possa declarar um rígido toque de recolher para impedir qualquer forma de protesto.

Em Myitkyina, a morte de dois jovens gerou indignação, dor e amargura. Apesar da violência contínua, pessoas de diferentes comunidades religiosas se reuniram em silêncio em frente à Catedral Católica de São Columbano para orar pelas vítimas e suas famílias.

Irmã Ann Nu Tawng, a religiosa que se tornou um "ícone da paz" por ter se ajoelhado diante de uma barreira policial, detendo seu avanço contra os manifestantes, repetiu o apelo e o gesto, e alguns soldados de religião budista ficaram de joelhos ao seu lado, mostrando respeito pela sua presença e suas palavras de mansidão e compaixão. “Pregamos e testemunhamos a escolha da não-violência, disse a religiosa. Nossa missão é anunciar e viver plenamente o amor de Cristo, também em relação ao inimigo".



*Vatican News