Órfãos, mas não da graça "Ora, nós, irmãos, orfanados, por breve tempo de vossa presença, não, porém, do coração, com tanto mais empenho diligenciamos, com grande desejo, ir ver-vos pessoalmente.” (I Ts 2:17) - RA
“Nós, porém, irmãos, privados da companhia de vocês por breve tempo, em pessoa, mas não no coração, esforçamo-nos ainda mais para vê-los pessoalmente, pela saudade que temos de vocês.” (versão NVI)

Sabemos que a Palavra de nosso Senhor é viva e eficaz, mas esse saber em nada diminui o assombro que temos ao constatar o quanto essa vivacidade e eficácia são literais no desenrolar da história da humanidade! Quem diria que Salomão foi tão literalmente sábio em dizer: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar” (Ec 3:1, 4).

Sim, sabemos todos que vivemos o tempo de nos afastarmos do abraço. Mas isso é estranho. Nós, filhos de Deus, se assim o somos, e verdadeiramente somos, fazemos parte de uma mesma família; irmãos, não de nascimento, mas de algo muito mais poderoso que isso: irmãos de sangue, sangue de Jesus. Quem nunca teve a deliciosa experiência de estar no mais isolado local do mundo e de repente: “Verdadeiramente, és também um deles, porque o teu modo de falar o denuncia” (Mt 26:73), descobre um irmão ali; ai pronto! É como se já se conhecessem desde o Éden.

O apóstolo Paulo nos fala justamente sobre esse período no segundo capítulo de sua primeira carta aos tessalonicenses, como citamos acima. É interessante e belíssimo vermos a gradação familiar que ele faz, deixando mais do que claro, que não escreve para estranhos, mas para sua família, família da fé. No versículo 7 diz: “nos tornamos carinhosos entre vós, qual ama que acaricia os próprios filhos”(RA) ou “fomos bondosos quando estávamos entre vocês, como uma mãe que cuida dos próprios filhos” (NVI). E, no verso 11 ele continua: “E sabeis, ainda, de que maneira, como pai a seus filhos, a cada um de vós”. Está posto o ambiente familiar, para que ele comece o versículo 17 então, dirigindo-se aos seus familiares, os seus irmãos.

O sentimento de Paulo não é um sentimento, é um afeto; que nos afeta hoje, agora. Algo muito mais profundo, que dividimos com o apóstolo em suas palavras: nos sentimos órfãos um dos outros. O distanciamento que nos é necessário, que parece até atentar para um dos mais fundamentais princípios da nossa fé, a mutualidade cristã; ainda que saibamos que ser mútuo nesse momento, é justamente nos afastarmos do abraço. Ainda assim é estranho, é órfão.

O comentário exegético de Champlin em seu livro “O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo’: “...irmãos... Paulo começa a mostrar aqui seu afeto familiar por aqueles que conduzia aos pés de Cristo, o que transparece mais fortemente nos versículos dezenove e vinte deste capítulo. Dirigiu-se a eles com o seu familiar ‘irmãos’, a fim de mostrar que todos pertenciam á mesma família divina e tinham o mesmo Pai celestial. Há um poder especial no amor cristão, que pertence a essa família divina; e o título ‘irmão’ expressa justamente isso”, “...orfanados... Essa é uma tradução literal. No original grego temos o termo grego ‘aporphanizo’, que significa ‘tornar órfão’. Deriva-se de ‘orphanos’, que quer dizer ‘órfão’. Essa palavra dá continuação à ideia de ‘família’ que aparece neste versículo. Estando afastado geograficamente deles (provavelmente pelo espaço de seis meses), Paulo se tornara como um homem sem família, pois os crentes tessalonicenses eram para eles uma família amada. Normalmente um ‘órfão’ é uma pessoa que perdeu os seus progenitores; mas essa palavra é aqui usada em um sentido mais amplo, isto é, indica alguém que foi privado de família ou amigos.”. Nós!

Mas este não é o fim, muito pelo contrário, a distância é tão somente física, no que diz respeito aos nossos corações, estes, nunca estiveram distantes! Porque o que nos une não são laços terrenos, são laços de amor; mas não qualquer amor, o amor de Jesus derramado por nós naquela rude cruz, que não somente rasgou o véu, mas, justamente por este ter sido rasgado, também nos foi rasgado todo distanciamento social, temporal, ou de qualquer tipo. Afinal, temos “um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.” (Ef 4:5, 6).

Assim, continua Champlin: “No tocante à presença pessoal, Paulo sentia profundamente o seu estado de órfão; mas, no nível do espírito ele continuava com eles, porquanto não pode haver divisão espiritual no seio da família de Deus, posto que todos têm comunhão mística com o mesmo Senhor, que é nosso Irmão mais velho, bem como com Deus, que é o nosso Pai.”. Ora, em nossa união familiar somos também Igreja, e contra esta, nem as portas do inferno podem nos separar.

Mas como tudo isto é possível? Simplíssimo: “E eu [Jesus] rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós. Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros.” (Jo 14:16, 17). Não estamos, nunca estivemos, e, nunca estaremos espiritualmente órfãos! O Espírito Santo está conosco, em nós, e por meio dele nós não precisamos estar afetivamente órfãos entre nós!

Você não está sozinho meu querido irmão, você não está sozinha minha querida irmã; o Consolador está no meio de nós. Cuidado para que não nos tornemos cegos a Ele, pela dor da distância, como os discípulos no caminho de Emaús; mas isso é só ilusão, só escamas, só um espelho embaçado: “Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito. Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.” (Jo 14:26, 27).

Podemos até estar distantes, e estamos, mas é só por um pouquinho; como traduz a Bíblia Viva: “... longe de vocês só um pouquinho de tempo (embora nosso coração nunca os tivesse deixado)”. A saudade aperta? Sim, mas isso também passará, o tempo de abraçar voltará, quer seja em nossas ruas asfaltadas, quer seja nas ruas douradas celestiais, logo-logo estaremos juntos. E sinceramente, lá em cima será muito melhor, pois não apenas nos abraçaremos entre nós, mas o Pai conosco estará.

Em fim, quero relembrar uma fala de Sam a Frodo no filme O Senhor dos Anéis – As Duas Torres (2002); fala esta que não existe no livro original de Tolkien, mas que foi especialmente escrita para o filme após o 11 de setembro de 2001: “É como nas grandes histórias, Sr. Frodo. As que tinham mesmo importância. Eram repletas de escuridão e perigo. E às vezes, você não queria saber o fim, porque como poderiam ter um final feliz? Como podia o mundo voltar a ser como era depois de tanto mal? Mas, no fim, essa sombra é só uma coisa passageira. Afinal, até a escuridão tem que passar. Um novo dia virá. E quando o sol brilhar, brilhará ainda mais forte. Eram essas as histórias que ficavam na sua lembrança, que significavam algo. Mesmo que você fosse pequeno demais para entender por quê. Mas acho, Sr. Frodo, que entendo sim. Agora eu sei. As pessoas dessas histórias tinham várias oportunidades de voltar atrás, mas não voltavam. Elas seguiam em frente, porque tinham no que se agarrar.”.

O que nós temos para nos agarrar? “Porque o próprio Pai vos ama, visto que me tendes amado e tendes crido que eu vim da parte de Deus.” (Jo 16:27).

Autores:
Pr. Niger Martins
Dr. Yehudi Martins (Médico/Psiquiatra)

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