Pesquisador da Fiocruz tira dúvidas sobre testes de Covid Desde o início da pandemia de Covid-19, uma série de perguntas surgiu sobre os testes que poderiam indicar a presença do novo coronavírus no organismo. E uma das dúvidas mais frequentes diz respeito aos resultados falsos positivos e falsos negativos. Para piorar, uma sopa de letrinhas confundiu ainda mais a população: IgM, IgG, RT-PCR… Para esclarecer estas e outras questões relacionadas ao tema, a Fiocruz conversou com o virologista e imunologista Ricardo Khouri, pesquisador em Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e integrando do Laboratório de Enfermidades Infecciosas Transmitidas por Vetores (LEITV), do Instituto Gonçalo Moniz - Ficoruz-Bahia

Os tipos de testes disponíveis

Há dois tipos de testes amplamente utilizados para diagnóstico: o teste molecular (RT-PCR), para identificar a presença do RNA viral no organismo na fase aguda da infecção; e o sorológico, para detecção de anticorpos IgM e IgG produzidos pelo organismo contra o vírus - ele detecta se o indivíduo já foi exposto ao vírus. Os testes sorológicos utilizam técnicas diferentes de diagnóstico: imunocromatográfico (o teste rápido da farmácia); imunoenzimático (conhecido como ELISA); e imunoquimioluminiescência. Estes dois últimos são feitos por laboratórios de análises clínicas.

Falsos positivos e falsos negativos

O primeiro fator de erros de diagnóstico é a escolha inadequada do período para a realização do teste sorológico em relação ao início dos sintomas. Nos primeiros dias, pode favorecer resultados negativos para IgM e IgG. O ideal é que seja feito o teste molecular (RT-PCR) até o sétimo dia após o início dos sintomas. Já a testagem sorológica para IgM e IgG deve ser realizada após 14 dias do início de sintomas. O período de incubação viral, que é o tempo entre a exposição ao vírus e o início dos sintomas, é em média de cinco dias. O teste molecular (RT-PCR) possui uma menor sensibilidade durante a fase de incubação viral. Nesse período, a taxa de falso negativos é muito alta (cerca de 68% de falso negativos). Após o início dos sintomas, a taxa de falso negativos cai significativamente, variando muito pouco entre o dia 1 (38%) e o ideal para o teste, dia 3 (20%), permanecendo indicada a realização do teste molecular até o sétimo dia após o início dos sintomas. Assim, não há justificativa para atrasar o teste molecular na presença de sintomas, já que muitas vezes é difícil para o paciente determinar o início dos mesmos. Além disso, o resultado dos testes moleculares demora em média 72h para serem liberados, comprometendo as estratégias de isolamento e tratamento do indivíduo potencialmente infectado. Assim, na presença dos primeiros sintomas associados à Covid-19, o ideal é testar imediatamente. Caso o teste molecular seja negativo, mas exista presença/persistência de sintomas característicos associados à doença, devemos repetir o teste molecular. Para excluir uma possível infecção assintomática e garantir a liberação para circulação segura de pessoa exposta ao vírus (circulação em área com alto número de casos ou contato direto com pessoa infectada), o ideal seria realizar dois exames moleculares, intercalado por um isolamento por sete dias entre os dois testes (RT-PCR no dia 1 e dia 7 após exposição).

Sensibilidade dos testes

Outros fatores associados ao fenômeno de resultados falsos positivos e falsos negativos podem se dever à baixa especificidade e baixa sensibilidade analítica do teste. Habitualmente, os testes moleculares (RT-PCR) possuem alta sensibilidade e especificidade analítica, muito próximo ou igual a 100%, porém os testes sorológicos tendem a variar entre 90-99% para ambos parâmetros. A escolha de um teste sorológico com baixa especificidade analítica (capacidade de detectar apenas anticorpos contra antígenos do SARS-CoV-2) pode favorecer resultados falsos positivos, porque pode identificar a presença de anticorpos contra outros patógenos similares ao SARS-CoV-2. O uso de um teste sorológico com baixa sensibilidade analítica (capacidade de detectar concentrações mínimas de anticorpos contra antígenos do SARS-CoV-2) pode favorecer resultados falsos negativos, uma vez que pode não detectar a presença de baixos níveis de anticorpos contra o SARS-CoV-2.

IgM e IgG positivos

Para entender o significado do teste sorológico positivo para IgM e IgG é importante revisar a velocidade de produção desses anticorpos pelo organismo durante a infecção. Ambos os anticorpos IgM e IgG contra o SARS-CoV-2 são encontrados em média a partir dos 14 dias após o início dos sintomas. Depois disso, a IgM permanece positiva por cerca de dois a três meses, e a IgG por até oito meses após a infecção. Resultados de testes sorológicos com detecção apenas do IgM contra o SARS-CoV-2 devem ser analisados com cautela (potencialmente falso positivo), já que o IgM é menos específico.

Os testes sorológicos podem ser qualitativos (identificação da presença ou ausência de sinal positivo para produção de anticorpos) ou semi-quantitativos (quantificação da intensidade do sinal positivo para produção de anticorpos, refletindo a quantidade de anticorpos produzidos pelo indivíduo). Nos testes semi-quantitativos, o diagnóstico é determinado pelo ponto de corte do teste utilizado (Reagente: valor > que o ponto de corte; Não Reagente: valor =< que o ponto de corte). Não é possível determinar o dia da infecção ou o grau de imunidade desenvolvida pelo indivíduo a partir da quantificação de anticorpos utilizando estes testes, já que estes valores podem variar de maneira distinta entre as pessoas testadas ao longo do tempo e a depender da forma clínica apresentada.

Quarentena para quem está com RT-PCR positivo

O ideal é considerar a indicação da quarentena a partir do resultado positivo desse teste, já que ele identifica a presença do material genético viral. A determinação do período de dez dias após o início dos sintomas ou do diagnóstico por RT-PCR é suficiente para garantir que o vírus não seja mais capaz de infectar outras pessoas. Já o teste sorológico deve ser utilizado para identificar os indivíduos já expostos ao vírus, tendo ou não desenvolvido Covid-19. A presença, principalmente do IgG, com ausência de sintomas, indica que esta pessoa está potencialmente fora da janela de transmissão do SARS-CoV-2.

Confiabilidade dos testes de farmácia

Os testes disponibilizados em farmácia são os testes imunocromatográficos de fluxo lateral, também conhecidos como testes rápidos. São normalmente menos sensíveis e menos específicos (o que pode ocasionar um número mais elevado de falso negativos e falso positivos) do que os testes dos tipos imunoenzimático (ELISA) e imunoquimioluminescência, realizados em laboratórios de análises clínicas. É importante ressaltar que nenhum teste laboratorial é perfeito e seu resultado deve ser interpretado em conjunto com os dados clínicos do paciente, outras análises laboratoriais e/ou exames de imagens radiológicos na presença de um profissional de saúde responsável pelo acompanhamento do paciente.



*Fiocruz