Covid-19: vitamina D, obesidade e insuficiência adrenal

Conhecer os fatores agravantes ou amenizadores, se assim a ciência nos permite dizer, da Covid-19 é essencial neste momento em que o Brasil vive uma segunda onda da doença. Cuidar de si mesmo e do seu próximo pode contribuir para hospitais menos lotados, salvando vidas vítimas de covid ou de outros males. Para falar sobre a relação da doença causada pelo coronavírus com a obesidade, a suplementação de vitamina D e a pouco conhecida, mas importante, insuficiência adrenal, conversamos com o doutor Rafael Buck Giorgi, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), coordenador do ambulatório de adrenal da PUC-SP e médico assistente voluntário do ambulatório de adrenal da Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina. E com o doutor Flávio Pirozzi, que também é endocrinologista da SBEM Regional São Paulo.  

Como é caracterizada a insuficiência adrenal?


Dr. Rafael Buck Giorgi
: Vale a pena a gente lembrar que as glândulas adrenais são duas glândulas pequenas presentes nos dois lados do nosso corpo, acima do rim, e que têm como função extremamente importante a produção de uma série de hormônios, dentre eles o cortisol, a aldosterona, e o que a gente chama de andrógeno, que são alguns derivados da testosterona.

A insuficiência adrenal é a perda da capacidade da adrenal na produção desses hormônios, seja por um defeito da própria adrenal - o que pode ocorrer nas doenças autoimunes, ou para algumas doenças infecciosas. No Brasil é bastante comum ainda a tuberculose, levando à insuficiência adrenal; ou seja por uma alteração da hipófise, que é a glândula que controla a adrenal.

A deficiência desses hormônios, a deficiência de cortisol, por exemplo, faz a pessoa ter alguns sintomas bastante inespecíficos, como cansaço, prostração, desânimo, depressão, uma perda da capacidade de reagir frente a situações estressantes como cirurgia e infecções; deficiência da aldosterona faz a gente ter uma pressão baixa, hipotensão postural, que é quando a gente levanta e sente uma tontura; e a perda dos andrógenos nos homens é imperceptível, porque o homem tem a produção dos andrógenos pelos testículos, mas nas mulheres pode ter redução de libido e rarefação de pelos.

É extremamente importante o diagnóstico precoce da insuficiência adrenal, porque a falta desses hormônios pode colocar nossa vida em risco, e isso pode levar a uma situação bastante grave que se chama crise adrenal. O paciente procura o pronto-socorro com completa ausência desses hormônios, e se não for feito o diagnóstico, ele pode vir inclusive a óbito.

Qual a relação entre a insuficiência adrenal e a Covid-19?


Apesar de já termos alguns relatos de casos mostrando que Covid-19 pode causar, diretamente, insuficiência adrenal, isso ainda é raro. A nossa maior preocupação hoje em dia incide nos pacientes que já são portadores de insuficiência adrenal e que contraem a Covid. Aparentemente, esses pacientes não têm um risco maior de contágio, mas eles têm um risco maior de desenvolver formas graves da doença.

Isso porque frente a uma infecção, por exemplo a Covid-19, normalmente nosso organismo duplica ou triplica nossa produção de cortisol, esse é o hormônio que monta nossa defesa, é o que faz a gente reagir frente a um período estressante, a uma infecção grave. Nos pacientes com insuficiência adrenal, como a adrenal dele não funciona, ele não vai ter esse aumento, e isso pode  levar a formas mais graves da doença.

Então, o que a gente tem que fazer é artificialmente aumentar o corticoide que esse paciente está usando. Ele já faz uso de reposição hormonal e a gente tem que artificialmente, durante esse período, aumentar essas doses. Então, se é uma infecção mais leve, o paciente deve ser orientado a duplicar ou triplicar a dose que ele já vem usando de corticoide pelo período da doença e depois voltar à dose habitual. Se for um caso grave, com necessidade de internação, esse paciente tem que orientar o médico que vai cuidar dele no hospital a usar o corticoide endovenoso, na veia, em doses mais altas, para que, de fato, a gente tenha uma proteção e que não falte cortisol para se defender frente a essa doença.

Portanto, esses pacientes com insuficiência adrenal sempre têm que portar um documento informando qual doença ele tem e o que fazer nessas situações de internação, pois o médico que vai atende-lo no hospital muitas vezes não está familiarizado com essa doença.

E, por fim, vale a pena a gente comentar que grande parte dos pacientes com Covid-19, atualmente, têm sido orientados a usar corticoide durante o tratamento. A indicação formal que temos é o uso do corticoide apenas nos casos de pacientes mais graves, internados, que usam oxigênio, que estão de ventilação mecânica, mas muitos têm usado de maneira indiscriminada. E esses corticoides sintéticos - dexametasona, prednisona, prednisolona - quando usados em doses altas e por algum tempo podem suprimir a nossa adrenal, também podendo levar a um quadro adrenal pelo uso exagerado desses corticoides. Então, corticoides são medicações que a gente sempre deve usar orientado por um médico e por um tempo restrito.

Doutor Flávio, é aconselhável suplementar a vitamina D em tempos de Covid-19?


Dr. Flávio Pirozzi:
Desde o começo da pandemia especula-se a necessidade da reposição da vitamina D. A única coisa que não se sabe desses trabalhos é se realmente a suplementação da vitamina D faz diferença, porque o que eles viram é que os pacientes que estavam mais graves tinham níveis de vitamina D mais baixos. Então, isso não nos faz, neste momento, acreditar que realmente a suplementação poderia fazer diferença. Pode ser, como tudo isso é muito recente, que daqui a algum tempo saia algum trabalho falando que realmente isso possa fazer alguma diferença.

O que a gente deve lembrar a respeito da suplementação da vitamina D é que muitas pessoas acham que por ser uma vitamina não faria mal, seria algo natural, enfim. Mas a gente tem que lembrar que a suplementação em níveis exagerados e de forma crônica pode levar à intoxicação. Então, existe uma condição quando os níveis de vitamina D ficam muitos altos, geralmente acima de 100, que é o que a gente chama de intoxicação de vitamina D. Isso pode levar a um quadro de muito cálcio no sangue, o que a gente chama de hipercalcemia, podendo levar, por exemplo, à formação de cálculos renais.

Então, a minha orientação neste momento é: procure um médico, faça o exame de vitamina D e, se os seus níveis de vitamina D estiverem baixos, aí sim faça a suplementação, mas orientada por um médico.

Outra dúvida comum é sobre a obesidade. Por que o excesso de peso é um fator de risco para o novo coronavírus?

A primeira coisa que a gente tem que entender é que a obesidade é uma doença. É uma doença crônica e é uma doença inflamatória. Então, o paciente que apresenta uma obesidade, ele abre as portas para diversas doenças, inclusive, por exemplo, infeções respiratórias. Entra uma série de problemas também da ordem respiratória, o que poderia agravar um quadro qualquer, uma pneumonia ou até mesmo a Covid-19.

E no caso da obesidade também - novamente eu vou repetir o que eu disse na pergunta anterior, tudo é muito recente - existem alguns trabalhos que mostram - tudo isso é especulativo, mas não deixa de ser interessante essa observação - que o coronavírus teria uma predileção pelo tecido gorduroso. 

Então, ele vai se alojar no tecido gorduroso e vai aumentar a sua replicação, quer dizer, ele vai fazer mais cópias do vírus dentro do hospedeiro, que é o ser humano, e isso poderia agravar a doença.

Isso culmina no que a gente vê, que seria essa questão triste que são muitos pacientes jovens, "sem nenhum problema de saúde", - mas como eu disse a obesidade é um problema de saúde - tendo apenas como agravante a obesidade, infelizmente indo a óbito.

Quais os cuidados recomendados para se manter longe de fatores de risco à doença?

Existem duas condições que eu acho que a gente tem que colocar aqui. Quem tem um fator de risco para a Covid-19 deve manter bem controlados os seus fatores de risco. Então, por exemplo, quem está a cima do peso, o ideal seria emagrecer - claro, sem fazer nenhum tipo de loucura, deixar de comer, fazer dietas milagrosas, fazer isso muito bem orientado; ou, por exemplo, quem tem um problema da ordem metabólica, o diabetes, que é um fator de risco, manter seus níveis glicêmicos bem controlados. Isso é uma coisa importante.

Agora, quem não tem um fator de risco, o ideal seria justamente a gente tomar os devidos cuidados, manter uma boa alimentação, praticar atividade física. A gente sabe que nesse momento, principalmente nessa segunda onda, nós estamos em uma situação complicada, a gente não pode ir em uma academia, mas eu sempre falo, é possível dentro de casa a gente manter uma boa alimentação, é possível dentro de casa a gente fazer atividade física para que, por exemplo, a gente não aumente o peso, que é uma coisa que, infelizmente, vem acontecendo com uma certa frequência.

E, independente da pessoa que já tem um fator de risco ou ainda não tem um fator de risco para o coronavírus, a gente tem sempre que lembrar que nós estamos iniciando a campanha da vacinação em todo o país e isso é um pinguinho de esperança no meio desse caos, mas é importante a gente lembrar que não é o momento de abaixar a guarda. Nós temos que manter todas as precauções, lavar as mãos, usar álcool em gel, uso de máscara e evitar as aglomerações.

 


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