Pastor vai morar em comunidade para realizar trabalho de prevenção ao tráfico de drogas Em maio, o ministro Edson Fachin determinou a liberação de jovens para acabar com a superlotação de unidades socioeducativas com lotação acima de 119% de sua capacidade. A decisão reflete o colapso vivido por unidades como o Degase, no Rio de Janeiro. Criado em 1990 para garantir para garantir a absoluta prioridade e proteção integral aos jovens em conflito com a lei, o Estatuto da Criança e do Adolescente parece nunca ter saído do papel. Entre 1991 a 2017, foram assassinados 27.887 adolescentes entre 14 e 19 anos em todo o estado do Rio de Janeiro. Um número superior à população de pelo menos 31 municípios fluminenses. Os dados são do Atlas da Violência, do Instituto de Pesquisa em Economia Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Esses números são uma preocupação de evangélicos que acreditam que anunciar o Evangelho é não só falar sobre ele, mas fazer com que as pessoas experimentem um pouco do amor de Deus por meio de ações. O pastor Juan Gonçalves Pereira, de 26 anos, é um destas pessoas que acreditam no poder transformador da mensagem de Cristo. Há cinco anos ele realizada o trabalho de capelania socioeducativa, pela agência Missões Rio, que é o departamento de missões da Convenção Batista Carioca. Juan trabalha junto a adolescente e jovens, com idade entre 12 e 21 anos, em conflito com a lei.

Como você recebeu o chamado para o trabalho de capelania socioeducativa?
Pastor Juan: Eu já tinha um trabalho na minha rua, em Queimados, na Baixada Fluminense. Cansado de ver meus amigos sendo mortos pelo tráfico. Comecei a abrir a minha casa para adolescentes s e jovens que começavam a iniciar uma uma caminhada para o tráfico. E soube do trabalho de capelania da Missões Rio e me voluntariei. Não foi nada especifico, eu sempre sonhei em ser capelão socioeducativo. Mas estava muito dentro da área que eu estava trabalhando. E eu fui me descobrindo no meio da caminhada, percebendo que era isso que Deus queria na minha vida. Quando eu completei três anos como capelão, não entendendo porquê os meninos muitas vezes entravam para o tráfico de drogas e querendo entender como era a vivência dentro da comunidade, eu resolvi sair de Queimados para morar dentro de uma comunidade. Eu queria estar mais próximo a eles, com a oportunidade de realizar um trabalho de prevenção. Hoje eu moro dentro da Providencia, que foi a primeira comunidade a surgir no Rio de Janeiro, a primeira do Brasil. Lá eu tenho também um trabalho de prevenção com os meninos para que eles não possam entrar para o tráfico de drogas.

E você tem o apoio da sua família neste trabalho?
Sou casado há quatro anos e minha esposa trabalha com as meninas da comunidade. Temos caminhado juntos nessa prevenção. Ela é psicóloga, está fazendo mestrado e apoia muito nas ações com as meninas. E a gente tenta juntar os dois grupos, meninas e meninos, quando é possível.

Como é a rotina do trabalho de capelania socioeducativa?
Geralmente eu estou dois dias da semana dentro da unidade socioeducativa, entre a Ilha do Governador (Zona Norte do Rio) e Belford Roxo (Baixada Fluminense). Trabalho com esses adolescentes e jovens por meio esporte. Atendo a cada turma em duas horas. A gente divide essas duas horas em atividades com esporte, música ou leitura. Depois temos um momento devocional. Basicamente é assim que acontecem as atividades.

Nestes cinco anos de capelani, qual o testemunho que mais marcou?
São muitas as histórias de vidas transformadas. Mas eu quero lembrar a do Bruno, um menino que veio de São Paulo para o Rio. O pai o colocou para fora de casa. Bruno cometeu vários crimes em São Paulo e perdeu a conta de quantas vezes havia sido apreendido. A família já não aguentava mais essa situação. Quando ele chegou aqui no Rio para morar com a mãe, que era separada, Bruno se filiou a uma organização criminosa e começou a cometer delitos ainda mais graves. Ele foi preso várias vezes. E foi em uma unidade do Degase , o educandário Santo Expedito, em Bangu (Zona Oeste do Rio) que ele teve o primeiro contato com a gente. Fazia perguntas muito interessantes. E um dia quando a gente falava sobre o perdão, ele perguntou se poderia ter perdão alguém que havia matado muitas pessoas. Nós respondemos que sim, que ele iria ter consequências pelo ato que cometeu. Então depois que fomos embora, Bruno aceitou a Cristo sozinho, dentro do seu alojamento. Na semana seguinte quando retornamos, Bruno não estava mais lá. Ele foi destinado para um local chamado “Seguro”, para onde são enviados os meninos que cometem algumas infrações que não são aceitas pelas facções ou por alguém que faz alguma besteira dentro da unidade. Bruno foi enviado para o Seguro. Todos os meninos que estão ali são perseguidos de alguma forma dentro da unidade, seja porque cometeu crime, porque fez besteira. Só que o Bruno foi perseguido porque ele aceitou a Cristo. Dentro da unidade ele aceitou a Cristo e os outros meninos começaram a agredi-lo. Bruno já cumpriu sua pena e hoje frequenta uma igreja evangélica, continua servindo a Deus lá em São Paulo, entendendo que a missão dele é anunciar o Evangelho lá na cidade dele.

Qual orientação você dá para quem tem esse chamado para trabalhar com capelania?
Uma vez eu ouvi da esposa de um pastor que “se a gente acha que vai ter algum prejuízo por fazer a vontade de Deus é para a gente fazer. Porque o prejuízo Deus paga”. Muitas vezes quando Deus fala com a gente alguma coisa relacionada ao que Ele deseja para nossa vida, a gente não sabe como que vai ser. Eu gosto muito do texto Gênesis 24, que fala quando Abraão chama um servo para encontrar uma esposa para Isaac. Aquele servo não sabia o que ele iria encontrar no meio da caminhada. É legal porque ele tenta dar uns jeitinhos na missão que Abraão deu para ele. A gente vê no início do capitulo ele voltando para Abraão e falando assim: “Se acaso eu chegar num lugar determinado e lá a mulher não quiser vir, eu posso levar Isaac até lá?”. E Abraão fala que a missão é essa,” você vai lá e vai trazer a mulher para mim”. Então esse cara não tenta dar jeitinho na missão que ele recebe, ele simplesmente obedece. E quando ele é levado para a casa de Sara, é preparado um banquete para ele. Ele fala que não vai se envolver com aquilo antes que ele cumpra aquilo que lhe foi ordenado. A gente precisa entender o que é o principal da nossa vida, será que é ouvir a voz de Deus e colocar em prática, mesmo que a gente não saiba como é que vai começar, por onde ir, quais são os caminhos que a gente vai seguir? Mas a gente precisa entender que Deus está no caminho direcionando a gente, porque é no caminho que Deus fala. Deus nunca dá a missão por inteiro, Ele dá o início da missão e no caminho Ele vai mostrando para a gente. Talvez seja a coragem, dependência de Deus. Porque muito daquilo que a gente faz na capelania socioeducativo, costumo dizer que é preciso ter coragem. Bater de frente com um menino que é dono de uma favela é complicado. A gente tem a experiência de colocar meninos de facções contrárias para jogar o futebol junto. É preciso coragem para isso. É claro, dependendo de Jesus, que não é o futebol, não é simplesmente a coragem sozinha que vai fazer as coisas acontecerem, mas é Jesus, porque a missão é Dele, a gente simplesmente faz parte daquilo que Ele deseja para a nossa vida. Quem tiver esse chamado para trabalhar com capelania socioeducativa é só procurar a Missões Rio (evangelismoemissoes@batistacarioca.com.br) e teremos a satisfação de orientá-lo da melhor forma.