Escassez de insumos pode fazer do Brasil um grande exportador, caso haja investimento em tecnologia

Adquirir itens como papelão, plástico e aço está cada vez mais difícil. A escassez dos chamados insumos tem levado algumas companhias a postergar entregas ou mesmo recusar novos pedidos. O problema acabou também afetando os preços dos bens intermediários consumidos pelo setor: a estimativa é de aumentos de até 30% nos últimos meses – com risco de repasse para o consumidor no varejo. Um dos setores mais afetados é o de medicamentos. No entanto, o presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi), Norberto Prestes, tranquiliza a população com relação a uma possível falta de medicamentos. Segundo ele, isso só ocorreria em caso de um novo lockdown na China ou algo totalmente fora do normal do que está acontecendo hoje. E o que, em princípio parece uma ameaça, pode ser tornar uma grande oportunidade para o Brasil. De acordo com o executivo, se houver investimento em tecnologia, o país pode se tornar um grande exportador de insumos.

A Abiquifi, em razão do risco de desabastecimento de produtos no mercado farmacêutico brasileiro como consequência da pandemia de Covid-19, realizou um mapeamento com suas empresas associadas, das quais são produtoras de insumos farmacêuticos ativos, e possuem todo ou parte de seu processo produtivo realizado fora do Brasil, a fim de contribuir com as medidas de prevenção para evitar o desabastecimento de insumos no país. A associação identificou que, por enquanto, não há risco de desabastecimento. Além disso, as chances de o Brasil se tornar menos dependente nesse setor são reais.

A indústria farmacêutica brasileira é capaz de produzir seus próprios insumos?


Norberto Prestes: Há a perspectiva de nos tornarmos menos dependentes. Hoje, no mundo globalizado, o comércio global como é feito hoje - é difícil a gente dizer que o Brasil vai se tornar independente. O que nós precisamos fazer é desenvolver um corpo técnico e tecnologias que nos possibilitem, num momento desse de escassez, reagir e conseguir produzir. E também mantermos um nível de produção de insumo aqui superior ao que é hoje. Nós temos capacidade tecnológica, capacidade de produção, precisando agora serem estudadas novas possibilidades, inclusive de políticas públicas, para que esses setores sejam melhor cuidados e melhor trabalhados.

O mercado está numa situação vulnerável, já era sabido. Se a gente importa 90%, 95% dos insumos hoje que são consumidos no país, é um sinal de alerta. Então, precisa ser feito uma reavaliação dessa superdependência e procurar meios de reduzir essa dependência, como já foi no passado recente. Na década de 1980, o Brasil produzia 55% do insumo consumido aqui. Então, é um momento do setor privado, junto com o governo, criar políticas para que reduza essa superdependência.

Há uma explicação para a alta demanda por insumos da China?


É difícil afirmar qual é o motivo desse aumento na exportação de insumos oriundos da China. Nós já éramos grandes compradores de insumos da China, então, não sei qual é a origem, quais são esses dados, mas uma coisa que talvez seja possível afirmar é que na pandemia vários outros países - Brasil também, claro, entrou nessa lista - passaram a consumir uma quantidade maior de medicamentos. Houve uma corrida nas farmácias no início da pandemia para fazer pequenos estoques de medicamentos, especialmente quem consome medicamento para doenças crônicas. Então, essa corrida fez com que a compra, a procura por medicamento, aumentasse. Obviamente, a indústria nacional teve um aumento na produção e foi necessário importar mais insumos. Essa, talvez, seja a explicação mais factível para esse fato. Agora, pode ter outros fatores aí que eu não sei, mudança de fornecedor, que precisam ser analisados melhor, com mais critério esses dados.

Faltou planejamento para que essa alta na procura por medicamentos não afetasse o mercado de insumos?


Eu acredito que faltou visão estratégica de país para que nós evitássemos chegar numa situação como essa. Claro que ninguém iria prever que algo como uma pandemia pudesse acontecer, não é? Mas aconteceu e as nossas fragilidades foram expostas. Cabe agora nós avaliarmos e evitarmos ou mitigarmos situações parecidas no futuro. A sensação é de que esse tipo de situação, globalmente falando, possa acontecer com mais frequência. Então, o país que tiver tecnologia e capacidade tecnológica para reagir, inclusive no desenvolvimento de uma solução, de uma vacina, de um medicamento para determinadas doenças, ele vai ficar mais protegido, menos vulnerável. E o Brasil, pela dimensão, população que possui, ele precisa urgentemente tomar decisões para que possamos evitar um novo colapso, ou criarmos oportunidades importantes para o país.

Qual o melhor caminho para se evitar a escassez de insumos e uma possível falta de medicamentos?

O melhor caminho é investir em capacidade tecnológica. O Brasil tem algumas áreas que estão ainda pouco exploradas, como os insumos farmacêuticos de origem vegetal, nós temos uma biodiversidade incrível para ser estudada e descobrir novos insumos, isso aí estou falando de perspectivas médio e longo prazo. Existem outras possibilidades imediatas de incentivar ainda mais os insumos de origem animal, como a produção de heparina e outras substâncias. E na questão dos insumos sintéticos, nós temos que investir mais em tecnologia nas universidades, centros de pesquisa, criar uma cadeia com vários prestadores de serviço, com capacidade de desenvolvimento de moléculas. Isso é possível, sim. E a importância disso para o cenário brasileiro é que a gente começa até a gerar novas oportunidades de negócio para o país, desenvolvimento melhor, inclusive, desse setor, possibilidade de exportação, de enviar esses produtos para outros mercados. O mundo vai precisar de novos fornecedores de insumos e o Brasil tem experiência para isso. Há mais de quatro décadas nós fazemos isso aqui, então, nós temos uma capacidade tecnológica no Brasil, e isso deve ser amplamente explorado, além da capacidade científica. Então, nós temos excelentes pesquisadores aqui, excelentes universidades, excelentes profissionais, que precisam de mais investimento para que desenvolvam habilidades necessárias para esse setor.