Vacinação, segunda onda, festas de fim de ano; infectologista tira dúvidas sobre a Covid-19

O Ministério da Saúde anunciou na manhã desta quarta (16) o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19.

Segundo o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, o SUS (Sistema Único de Saúde) vai priorizar as vacinas produzidas no Brasil, sendo elas a ChAdOx-1, desenvolvida pela parceria Oxford/AstraZeneca, que será produzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); e a CoronaVac, desenvolvida pela Sinovac Biotech e produzida pelo Instituto Butantan. Ainda segundo Pazuello, os estados brasileiros receberão a vacina de forma igualitária e proporcional, em uma estratégia nacional.

Para entender melhor o processo de vacinação contra a Covid-19 e o cenário de alta de casos da doença neste fim de ano, o Melodia News ouviu o Dr. Daniel Junger, médico infectologista, com experiência em virologia clínica e doenças tropicais. Ele é formado em Medicina pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e possui Mestrado em Pesquisa Clínica em Doenças Infecciosas pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz).

Qual é a importância de termos um plano nacional de vacinação contra a Covid-19?

Dr. Daniel Junger:
É importante a gente ter uma estratégia nacional, porque isso dá uma hegemonia dos grupos vacinados entre os estados, onde a gente tem um inevitável intercâmbio de pessoas. Então, se a gente tem uma estratégia independente para cada estado, a cobertura vacinal progride lentamente em relação aos efeitos protetores para a população em geral. O vírus continua circulando muito se a gente tem estratégias diferentes em cada estado.

O Ministério da Saúde busca acordos com fabricantes de outras candidatas à vacina, além da parceria Oxford/AstraZeneca e da iniciativa internacional da OMS.  Alguns estados, como São Paulo, também têm acordos para compra de diferentes imunizantes. Essa variedade é benéfica ou atrapalha um plano nacional de vacinação?

Na verdade, essas diferentes possibilidades de acordo com tecnologias diferentes, métodos diferentes e laboratórios diferentes podem fazer com que a gente tenha, progressivamente melhores produtos. Isso é interessante sim.

É provável que a vacinação da maior parte da população do Brasil leve todo o ano de 2020 e até chegue a 2021. Já dá para saber se as mutações do coronavírus podem atrapalhar a imunização, levando em conta possível queda na proteção gerada pelas vacinas?

Essa delonga que a gente vai ter para cobrir toda a população pode ser amenizada quando a gente tem uma estratégia hegemônica em toda a federação. Isso só o tempo vai dizer, se agente vai ter um problema pela mutação do vírus, se até a gente terminar de cobrir toda a população aquele sorotipo contra o qual a vacina protege já não é mais o predominantemente circulante. Só o tempo vai dizer. Mas, em princípio, a gente trabalha com a estratégia de que a vacina talvez tenha que ser atualizada, semelhante ao que acontece com a Influenza.

Sobre o Rio de Janeiro, o estado vem apresentando há algumas semanas, alta constante nos casos e mortes por Covid-19. Já dá para dizer que o Rio está passando por uma segunda onda da Covid-19?

Sim. Já estamos numa segunda onda em vários lugares do Brasil. E a gente, pela dinâmica que a gente tem hoje de fluxo de pessoas, a gente não tem mais aquela baixa quase completa [da primeira onda] como a gente teve em 1918 com a Gripe Espanhola para poder ter um novo pico. Isso se deve ao comportamento das pessoas que não seguem as recomendações. Recomendações simples, são quatro recomendações: isolamento de infectados, higiene das mãos, uso de máscara e distanciamento social. As pessoas não conseguem cumprir isso, e por isso elas são os veículos para circulação do vírus. Com isso a gente tem uma onda que na verdade não chega a cessar e a gente já tem uma segunda onda, sim.

O Rio pode ter que retomar medidas mais duras de isolamento social, como o lockdown?

É possível que tenhamos medidas mais restritivas por causa do colapso do sistema de saúde. Nós estamos numa situação de catástrofe, onde a demanda excede a oferta de estrutura instalada, de serviço, e o sistema de saúde tende a colapsar. Não apenas por falta de leito para Covid, como para outras doenças, já que os leitos estão sendo deslocados para o atendimento à Covid, e não está dando conta. Então, é possível que a gente tenha medidas restritivas para preservar a possibilidade de assistência.

Sobre as festas de fim de ano, qual seria sua recomendação para as pessoas que querem reunir a família?

Em relação às festas de fim de ano, o ideal é manter o distanciamento social. Se há possibilidade de se ficar a dois metros de distância numa reunião familiar – o que é muito difícil de acontecer – então isso é seguro. Mas mantendo higiene das mãos, porque a gente toca em itens de uso comum, como maçanetas, copos, talheres, enfim. O ideal é que a gente demonstre nosso carinho pela distância, e não pelo abraço. O carinho em tempos de pandemia é válido muito mais pela preservação do que por um contato onde a gente leva a doença para os nossos familiares.