Publicidade

Como ter paz em tempos de coronavírus Em Filipenses 4.1-9 o apóstolo Paulo encontra-se preso. Epáfrodito (alguns consideram ser o mesmo Epáfras de Colossenses) vem até ele trazer uma oferta das igrejas. Paulo, então, responde a essa oferta com sua epístola.

Os cristãos do primeiro século viviam em um ambiente de emergência. O próprio Paulo estava preso e em breve seria morto, o mesmo Paulo que em seu passado, como Saulo, matava os cristãos. Estes viviam em um ambiente de permanentes privações, perseguições, escassez, mortes. É para esses cristãos que essa epístola é direcionada. Como ter paz? Como vencer a ansiedade? Como não se desesperar em meio ao caos do mundo? Como? Paulo responde com três maneiras:

1° Oração – V. 6: “Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças.”

Obviamente que a ansiedade em si não é pecado, na verdade ela é um aprimoramento evolutivo para reagirmos às situações de estresse, situações de luta ou fuga; em determinados momentos ela pode desregularizar e vir a tornar-se patológica, necessitando de intervenção médica. O que Paulo aqui condena é o andar ansioso, ou seja, viver em ansiedade, isto é, quando a ansiedade torna-se falta de confiança no amor de Deus. Por isso o imperativo: “não andar ansioso!” significa não faltar com a fé em nosso Senhor.

É interessante o detalhe “coisa alguma”. ‘Mas o meu problema é grande demais’. Sim, não se nega isso. Mas não ande ansioso por coisa alguma. O que significa “coisa alguma”? Significa: nenhuma coisa! Isso inclui o coronavírus? Bem, podemos até entrar em discussões biomédicas se um vírus pode taxonomicamente ser classificado como um ser vivo, mas ninguém discute que ele é uma “coisa”. Então, respondendo, sim, o “não andeis ansioso por coisa alguma” inclui o coronavírus. Isso anula as precauções, os cuidados, a prudência? Claro que não! Apenas demonstra que tudo está no controle de Deus, como sempre esteve e estará. A vida e a morte. Tudo!

Aqui temos a orientação bíblica para a ansiedade e temor, o que fazer: orar.

Para além das considerações teológicas, quero ponderar analiticamente sobre a oração. Quando Freud desenvolve sua obra a palavra passa a ter uma importância nunca antes tida para as ciências “psi”; com Lacan isso então se amplia de forma exponencial. A nós nesse momento vale sabermos que a palavra traz continente ao conteúdo afetivo livre. Oi?! É simples: a palavra ‘saudade’ parece existir somente no português e no árabe; ora, sentir saudade não é exclusivo desses povos, é universal, mas expressar esse afeto, compreendê-lo discursivamente, ai sim exige a palavra.

Para facilitar, peguemos o exemplo do luto: enquanto não conseguimos verbalizar “meu parente morreu”, ficamos com um afeto livre, sem continente, que nos causa uma grande dor e sofrimento; mas quando conseguimos pôr em palavras, temos o desabafo. Quem nunca sentiu-se extravasando, vazando conteúdo afetivo, conteúdo emocional, de raiva, tristeza, alegria? Nos sentimos sufocados, afogados até que colocamos em palavras e sentimos o alívio. Porque damos continente a esse conteúdo, forma ao sofrimento, modelagem ao sentimento.

Claro que temos que saber com quem falar e a quem direcionar essa demanda; mas se temos profissionais que nos ajudam, o que dizer do Deus soberano, Senhor dos Senhores, resolvedor de não só problemas, mas de pessoas? Portanto oremos!

E se lhe falta mecanismos para tal, se não sabe como pôr em palavras, como orar, é com você mesmo que quero falar: “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos. Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Rm 8.26-28). Achegue-se a Ele e diga: Senhor nem como orar, como me expressar eu sei, mas estou aqui, pois dependo totalmente de ti e do teu amor.

É exatamente isso que Paulo está dizendo com "as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças". Petições, todos os seus pedidos; suas orações; mas também suas súplicas, o que é isso? Suplicar é colocar-se na posição de total dependência; de não ter em si mesmo nalguma força, poder ou meios para resolver esta situação e justamente por isso suplica-se a quem tem todo poder, poder de vida e morte. Com ações de graças, porque agradecemos independente da resposta, não agradecemos a resposta, agradecemos o privilégio de podermos fazer conhecidas diante Dele, todas as nossas coisas.

Muitos dos nossos medos, ansiedades, preocupações excessivas com o futuro, presente e passado advém de não orarmos; não levarmos diante dele. Ore então, hoje, agora, gaste tempo com Deus, falando com Ele, sobre o que o aflige, retire-se para com Ele.

Pois há uma promessa, V. 7: “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus.”. Notemos que não é a paz “com Deus”. Esta diz respeito a não estar em conflito com Deus, não estar em inimizade com Ele, não mais ter a ira de Deus sobre nós; a ira de Romanos 1 que desce dos céus sobre toda criatura. A paz com Deus é obtida mediante a justificação, quando nos convertemos deixamos de ser inimigos de Deus e nos tronamos seus filhos; e, por isso passamos a ter a paz com Ele.

O que Paulo está prometendo aqui é a paz “de Deus”, que vem Dele, a sensação de calmaria no seu coração, o sentimento de tranquilidade na sua alma, as águas de descanso do Salmo 23 para aqueles que tem o Senhor como pastor. A paz de Deus é a manifestação prática, empírica da paz com Deus; que se manifesta de forma pessoal, individual em você, para você, em sua vida, ainda que a tempestade esteja batendo lá fora.

Atentemos para o fato que ele diz “guardará”. Aqui é mais uma vez o apostolo fazendo referência a uma figura militar, isto é a paz de Deus será como um guarda armado de prontidão na porta da sua mente e do seu coração, para não deixar passar nenhuma ansiedade. É justamente por isso que tal paz excede todo e qualquer entendimento.

2° Medita no que é certo – V. 8: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento.”

Isso não significa não se preocupar, não tomar as medidas de proteção cabíveis; significa ir além disso tudo e pensar em Jesus Cristo! Ocupar o nosso pensamento com a certeza de que Ele ouve as nossas orações, petições e súplicas, Ele é o guarda que nos protege com a sua paz. E se a doença chegar? E se até a morte vier?: “Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.” (Rm 8.38 e 39).

Isso também não é uma defesa do pensamento positivo, mas uma defesa de que nossa mente necessita estar ocupada das promessas de Deus, dos seus mandamentos e virtudes. Para tal, tomemos os ensinamentos de Anselmo de Cantuária “Eia, vamos, pobre homem! Foge um pouco às tuas ocupações, esconde-te dos teus pensamentos tumultuados, afasta as tuas graves preocupações e deixa de lado as tuas trabalhosas inquietudes. Busca, por um momento, a Deus e descansa um pouco nele. Entra no esconderijo da tua mente, aparta-te de tudo, exceto de Deus e daquilo que pode levar-te a ele, e, fechada a porta, procura-o.”. Retire-se para Deus, retire-se em Deus; leia a Palavra, ouça louvores, ore, jejue, esteja em sua igreja; pratique assim a Palavra:

“Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra;” (Cl 3:1 e 2). Você foi ressuscitado junto a Cristo? Então: METANOIA! Pense na ressurreição dele a qual te dá vitória sobre todas as coisas.

3° Pratique tudo isso – V. 9: “O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso praticai; e o Deus da paz será convosco.”.

Tudo o que você já aprendeu, recebeu e ouviu, agora ponha em prática; ponha em prática a metanoia! E ai, o Deus da paz será com você; não ‘somente’ a paz de Deus, mas o próprio Deus da paz será com você. Mas para tal, pratique o evangelho, viva o evangelho na sua vida, no seu cotidiano.

A promessa é claríssima: “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus. E o Deus da paz será convosco.”
Orar, pensar e praticar!

s