Educação: aulas presenciais x aulas remotas

Com o fechamento das escolas e universidades, cerca de 2 bilhões de estudantes ficaram sem aulas em 160 países. No Brasil, estamos vendo se estender a quarentena educacional na maioria dos estados e isso começa a ser um grande ponto de discussão, inclusive, com viés político. De acordo com a psicanalista, Elizandra Souza, “ainda não sabemos as consequências reais da quarentena na vida escolar, seja pelas questões formais de aprendizado, seja pelas questões psíquicas que atingem crianças e adolescentes, como ansiedade e depressão”.

Aqueles que defendem a continuidade da quarentena, se guiam por recomendações de políticas de saúde, que enxergam um perigo real de disseminação do vírus de forma mais elevada, visto que as escolas, principalmente as públicas, não estariam preparadas para adequação de distanciamento e vigilância dos alunos para seguir as medidas necessárias.



Por outro lado, temos os favoráveis que apontam aos outros espaços abertos, inclusive as aglomerações em parques e praias, onde muitas crianças estão presentes. Além disso, dizem sobre os obstáculos educacionais nas aulas remotas e o abismo que será gerado – muito maior pós-pandemia – entre alunos de classes e condições sociais diferentes.



Já é fato que nem todos os alunos estão tendo as mesmas condições para dar continuidade ao aprendizado, mas para a psicanalista o aprendizado vai além de acesso tecnológico, “pois o aprendizado tem muito mais a ver com a transferência, pelo viés mesmo da psicanálise, onde o outro assume um certo lugar de saber/poder que o aluno busca para aprender”.

Isso significa que não é somente a transmissão de informações que gera conhecimento, toda a relação intersubjetiva que é exercida no momento da aprendizagem.

“Há experiências e conhecimentos que somente na convivência com o outro – na escola – é possível. Com o outro aprendemos a trocar, dividir, entender as expressões e gestos. Podemos reconhecer o olhar bravo do professor ou quando um colega está triste. Além disso, criança também aprende com o movimento do corpo, aprende sobre espaço e tempo, aprende sobre como correr mais que outro ou não atropelar o coleguinha, aprende o que é um segredo, o que é gostar, o que é ficar chateado e não poder fazer birra para não passar vergonha”, diz Elizandra.

Ainda que pairam dúvidas sobre o retorno “normal” das aulas presenciais e que este momento seja adiado mais uma vez, a psicanalista Elizandra aponta outras questões importantes que, por vezes, ficam em segundo plano, pois dizem das emoções das crianças e adolescentes, nem sempre valorizadas como se deve.



“As crianças estão sofrendo psíquica e emocionalmente. Se num primeiro momento foi gostoso e importante, estar mais em casa, com os pais, há problemas que não queremos enxergar, pois parece não ter solução imediata, ou está muito distante de nós. Nas classes mais baixas, temos crianças sofrendo abusos ou assistindo a degradação dos pais por violência, álcool e desemprego. Por outro lado, em outras classes, há pânico nas crianças que acreditam numa morte eminente, há excesso de atividade pelo computador, e pelo isolamento dos próprios pais que precisam trabalhar muito mais, mesmo estando em casa. No final é confuso para a criança, pois nem estão de férias, nem estão trabalhando ou estudando, de maneira formal”, finaliza a psicanalista.