Dermatologista Fabrício Lamy explica como a psoríase afeta também o emocional

A pele é o maior órgão do corpo humano e aquele que expressa nossos sentimentos, nossas origens étnicas e explicita muitas vezes também nossos hábitos de vida e até nossas emoções, quando nos assustamos ou ficamos envergonhados. O doutor Fabrício Lamy é médico e professor de pós-graduação de dermatologia do instituto Carlos Chagas, especialista no tratamento das dermatoses inflamatórias de pele. Ele é especialista em psoríase, uma destas doenças da pele que podem afetar outros órgãos e até mesmo o nosso emocional.



Por que as doenças da pele costumam abalar tanto as pessoas emocionalmente?

Dr. Fabrício Lamy: Tanto a pele como o sistema nervoso têm a mesma origem embrionária, lá durante a formação dos nossos órgãos e tecidos, ainda no ventre das nossas mães. Então tudo o que afeta a pele, vai afetar mais ao sistema nervoso e vice versa. É por isso que doenças crônicas de pele tendem a abalar mais o emocional das pessoas.



A psoríase é uma destas doenças? Como ela pode acometer as pessoas?

A psoríase é uma das doenças a que eu mais me dedico há muitos anos. É uma doença inflamatória de pele crônica, que acomete em torno de 2% dos brasileiros, cerca de 4 milhões de pessoas. Muitos com as formas mais brandas da doença, menos perceptíveis, aquelas descamações e vermelhidões nos cotovelos e couro cabeludo. Mas uma boa parte destes pacientes têm formas mais extensas, que acometem áreas mais importantes do corpo. Podem comprometer inclusive a genitália, as unhas, todo o couro cabeludo, causando lesões na face e inclusive prejudicando as articulações. A gente sabe hoje que a psoríase pode comprometer as articulações; é a psoríase artropática. Essa pode até gerar alterações persistentes nos movimentos das articulações, causando dores e dificuldades de caminhar. É uma doença muito importante que precisamos estar atentos ao diagnóstico para fazer o tratamento correto.



A psoríase é considerada uma doença comum? Existe um grupo de pessoas mais suscetível a ela?

A psoríase é uma doença relativamente comum. Certamente todo mundo vai acabar conhecendo alguém que tenha psoríase. E ela tem um caráter genético. Quem tem algum caso na família, terá uma chance maior de apresentar a doença. Mas há casos em que a pessoa não tem ninguém na família e desenvolve a psoríase. Ela tem um caráter genético sim, já bem definido. Mas podem haver situações em que o paciente é o primeiro caso naquela família.



Então não tem como evitar a psoríase?

O fator causal, a princípio, é genético. Ou se herdou isso ou talvez uma mutação durante a formação dos órgãos daquela pessoa. Portanto, não há como se evitar a psoríase. Mas existem fatores que ajudam na expressão da doença, na manifestação dela. Então, são todos aqueles fatores que colaboram com a inflamação do corpo. O principal deles é a obesidade, que deve ser combatida. A obesidade hoje é endêmica; cada vez mais a gente tem pessoas obesas. Nesse período de pandemia, as pessoas mais assustadas, ficando mais dentro de casa, ansiosas, isso acaba levando a uma alimentação mais desregrada no geral e muitas ganharam peso. O peso excessivo é um fator pró-inflamatório e pode levar ao surgimento e agravamento de diversas condições, não só da psoríase como do diabetes, da hipertensão, entre outras. Para se evitar uma expressão da doença, um agravamento, estar no peso ideal, com uma dieta balanceada e atividade física regular é sempre muito importante.

A melhor forma de se enfrentar o problema, inicialmente é com o diagnóstico correto. É preciso procurar um dermatologia para se fazer o diagnóstico. Às vezes é necessário fazer uma biópsia, porque existem doenças de pele que podem parecer psoríase, mas não são. Então é importante o diagnóstico correto e o tratamento adequado. As pessoas usam muito cremes de corticoide, que são vendidos sem receitas nas farmácias, e isso a médio prazo, o uso contínuo, pode trazer problemas não só em relação ao agravamento da doença como trazer outros problemas. O corticoide usado na lesão de psoríase será absorvido e pode alterar parâmetros sanguíneos, levando a problemas como diabetes, glaucoma, hipertensão. O uso desses medicamentos, mesmo em cremes, deve ter indicação médica e por um período específico.



Como é possível enfrentar este problema, fisicamente e emocionalmente? Existe um melhor tratamento?

Existe um conceito geral das pessoas de que aquilo que se passa na pele não é medicamento e não faz mal algum. Então o índice de automedicação para esses produtos tópicos, de uso local, nas doenças de pele é muito elevado. Essas substâncias de uso local podem ter ação sistêmica, podem atingir o organismo. É muito importante que as pessoas procurem o atendimento dermatológico para esclarecer o que elas realmente têm. É comum, quando o assunto é a pele, as pessoas ouvirem o amigo, o vizinho, alguém que tem uma coisa parecida para tratar igual, mas isso não deve acontecer. Tem que se buscar um diagnóstico preciso, porque existem outras condições de pele que podem parecer psoríase, mas não são e precisam de tratamentos distintos. O recado principal é para que se procure atendimento. 

Eu comando um serviço de dermatologia especializada em psoríase. É um atendimento popular, atendemos no SUS, na Policlínica do Rio de Janeiro, na ‪Avenida Nilo Peçanha, 38‬, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Toda terça-feira é dia do ambulatório de psoríase. Acompanhamos centenas de pacientes e conseguimos controlar a maioria dos casos. Os pacientes ficam sem lesões. Hoje os tratamentos avançaram muito. Nós temos medicamentos, fototerapia, medicamentos orais e injetáveis que controlam quase que a totalidade dos casos e os pacientes podem ter uma vida totalmente normal, livres das lesões de pele. E sem os problemas que podem advir de uma psoríase não tratada corretamente; não só o comprometimento articular como outras alterações sistêmicas. 

É muito importante que as pessoas busquem o diagnóstico correto. É preciso ter o conhecimento de que nem toda descamação é psoríase; existem outros problemas de pele mais simples que podem provocar descamação. Mas é preciso esclarecer com um especialista. E se for psoríase existe tratamento, algumas vezes bem simples, sem necessidade de uma terapia mais complexa. No entanto, mesmo os casos mais complexos podem e devem ser tratados porque hoje nós temos um arsenal terapêutico muito amplo. E o dermatologista que conhece a doença, conhece o tratamento, pode sem dúvida fazer com que esses pacientes tenham uma vida absolutamente normal.



Obrigada pelos esclarecimentos tão importantes à população.

É um grande prazer poder levar informações que eu considero relevantes, ajudando as pessoas que possam estar com alguma angústia, algum sofrimento, por conta da psoríase que é uma doença que muitas vezes faz as pessoas ficarem mais retraídas, deixarem de sair, de se relacionar. Isso acaba trazendo uma série de outros transtornos na vida do paciente. Como eu trabalho com essa doença há muitos anos é sempre um prazer poder ajudar as pessoas e ver o quanto elas podem mudar sua qualidade de vida. É um prazer para nós, médicos. A gente estudou medicina para isso, pra ajudar, pra melhorar a vida das pessoas. Não só salvar vidas, mas também proporcionar uma qualidade de vida melhor. Isso a gente consegue levando informação a quem realmente precisa.