Dra. Eni Peniche explica como depressão e suicídio também afetam pastores

Estamos em um mês que simbolicamente representa a luta contra o suicídio: o Setembro Amarelo, uma ação criada em 2015. Um mês para enfatizar o debate sobre depressão e inúmeros outros problemas, sobretudo, desencadeados em nosso psicológico. Normalmente pensamos que pessoas que frequentam uma igreja evangélica estão mais fortalecidas para enfrentar este tipo de problema e poder ajudar a quem passa pela dor da depressão, caminho propício ao suicídio. No entanto, infelizmente, irmãos em Cristo não estão livres deste mal e os casos de cristãos que tiram a própria vida não são raros. Nos últimos anos, alguns pesquisadores cristãos que atuam diretamente com ministros do Evangelho têm sugerido vários tópicos que podem originar ou contribuir substancialmente para a depressão entre pastores. Entre as possíveis causas estão: batalha espiritual, condição física, expectativas irreais, dificuldades para lidar com críticas, problemas conjugais e domésticos, finanças, excesso de compromissos, solidão, entre outros. Para falar sobre este tema, eu conversei com a doutora Eni Peniche, Psicóloga, especialista em Medicina Psicossomática e Neurociência do Estresse.



Como o universo religioso pode se tornar responsável a esse problema dentro das igrejas, especificamente com pastores?

Dra. Eni Peniche: Normalmente, as pessoas podem se tornar reféns de seus próprios discursos. Isso também pode acontecer com os sermões dos pastores. Na intenção de estimular e motivar a fé, muitos acabam passando um modelo de pessoas fortes, destemidas e quase inabaláveis. Essa postura vai sorrateiramente os tornando um modelo das resoluções de todos os problemas dos fiéis. 

E, para conseguirem se manter admiráveis, cuidadores e salvadores, eles perpassam por uma transição quase que imperceptíveis a seus olhos, esquecendo, com isso, sua "humanidade" e quando percebem, já  ultrapassaram a barreira do esgotamento e então, 'como que de repente', se percebem no fundo do poço, tendo como cenário a triste realidade da depressão. 

Isso acontece quando suas forças psicossomáticas já se foram e o que resta de tudo isso é o pior estado que um líder que não passa de um "ser humano". Ele vai enfrentar: o sentimento de impotência e a incapacidade mental de seguir adiante. Isso é um estado deprimente e incapacitante, podendo levá-lo ao surto, ou até ao suicídio.

Há algum tipo de conflito entre a inteligência emocional e a inteligência religiosa? Por favor, explique.

Não tem como conflitar, muito pelo contrário. Quanto mais inteligência emocional, mais a mente fica disponível pelo  entendimento e a renovação da mente pelo culto racional (Romanos 12.1,2). Para experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

Como o pastor deve agir diante de efeitos psicológicos desencadeados pela crise na vida dos fiéis?

O pastor deve dar todo apoio possível, respeitando seu limite de apoio espiritual, tendo a humildade para discernir onde seu limite ou competência podem chegar. O que importa mesmo é o resultado que um tratamento profissional na área psicológica poderá impactar positivamente. na vida de seus fiéis.

Como acontece a somatização dos problemas? Pessoas como líderes religiosos que se envolvem com os problemas alheios são mais suscetíveis ao desenvolvimento de um caso de depressão?

Estes problemas emocionais não aparecem da noite para o dia, mas surgem pouco a pouco por causa das dificuldades e do esgotamento emocional, das crises do dia a dia. Muitos por serem  perfeccionistas e centralizadores, acabam não dando conta de controlar a situação como um todo.

Parece que ainda boa parte das igrejas consideram que os cristãs são "imunes" à depressão. Como a igreja e a família podem ajudar um pastor que passa por este problema?

Sim, concordo! Ninguém está livre das garras da depressão e da ansiedade. Ter problemas emocionais não é uma escolha. Imagine se uma pessoa com ansiedade e depressão vai dizer: “Quero me sentir mal e mergulho em um poço de tristeza e aflição, para ver se me afogo.”. Claro que não! Isso não funciona assim. Na verdade, isso pode acontecer com qualquer um de nós. Portanto, nem os cristãos  estão  livres das garras da depressão e da ansiedade.

A depressão e a ansiedade não são sinais de fraqueza, mas sim de força e esgotamento. Elas também não são consequência de simplesmente uma escolha pessoal. Não podemos, na maioria das vezes, dizer se queremos ou não queremos que as dificuldades nos acompanhem.

A maioria dos problemas emocionais são derivados da luta contra as dificuldades da vida que nos acompanham e, portanto, por termos tentado permanecer fortes por tempo demais, vem o esgotamento, o estresse e a depressão. 

Como também, cada um tem um suporte mental diferente do outro e assim por diante, lembre-se disso, pois, ninguém está livre de se relacionar com a ansiedade e a depressão em algum momento da sua vida, seja de maneira direta ou indireta. Portanto, cuidem-se! 

Por mais que alguém te ame ou se preocupe com você, nunca poderá fazer por você, o que só você pode fazer por você! 

A pandemia parece ter acelerado ainda mais a agenda de pastores. Eles mergulharam em um universo que, para muitos, era totalmente desconhecido: as lives. O tempo está cada vez mais escasso. Como fazer os pastores entenderem que tempo é vida?

O ativismo como a aceleração dos pensamentos, como também, as multitarefas levam ao estresse mental, físico e socioemocional. Quem acaba ficando por último nesta fila, geralmente é a própria família e este processo normalmente desencadeia cobranças, que geram culpas e incapacidade  psicossomática de exercer várias funções ao mesmo tempo.

Como consequência desse panorama existencial, poderá surgir um quadro depressivo por esgotamento.



Você pode acompanhar o trabalho da Dra. Eni Peniche no programa Debate Melodia pela 97,5 FM e também pelo Instagram: @enipenicheoficial.