Diretor Geral da Alerj fala sobre crescimento do sistema delivery e suas consequências

Diante da crise mundial provocada pelo novo coronavírus e que obrigou o fechamento de estabelecimentos como os restaurantes, a saída para muita gente foi pedir compras e comida em casa. Só a plataforma Ifood registrou entre fevereiro e março uma alta de 22%, embora a empresa não revele números absolutos. Foram 51 mil novos entregadores no mês passado e 18 mil novos restaurantes. Já o número de pedidos por itens de supermercado, serviço que a empresa começou a fazer em 2019, dobrou entre fevereiro e março. Hoje, cerca de 600 estabelecimentos, em 127 cidades do país, têm parcerias com o iFood. A meta, segundo a empresa, é chegar a mil no final deste semestre, em 200 municípios. Mas como fica a relação com clientes e entregadores? Existe a preocupação com a saúde de entregadores e clientes, e também a suspeita de que empresas de delivery estariam se aproveitando da crise para explorar seus colaboradores e também os próprios mercados e restaurantes, através da cobrança de taxas. Foi sobre este tema que o Melodia News conversou com Wagner Victer, diretor geral da Alerj, ex-secretário do Rio de Janeiro e ex-presidente da Cedae, a Companhia de Abastecimento de Água e Esgoto do Rio.



As plataformas de delivery como Ifood, Rappi, Uber Eats e 99Food vivem uma explosão de novos entregadores. O aumento do número de pedidos também cresceu muito. O que garante os direitos destes trabalhadores?

Wagner Victer: Nós estamos vivendo um momento de grande solidariedade no Brasil e no mundo. E obviamente esta solidariedade ela deve acontecer também no ramo empresarial. Aconteceu um aumento brutal de pessoas que estavam consumindo na rua e hoje estão consumindo em suas casas, por delivery. Então estes serviços de entrega deveriam fazer o maior investimento em equipamentos de segurança, desinfecção dos seus colaboradores e também deveriam reduzir o percentual que estão cobrando de seus parceiros. Mas além de não oferecer equipamentos de segurança e higienização a baixo custo, estão cobrando as mesmas taxas. Por isso muitos lojistas não estão oferecendo o serviço de delivery, pois além de pagarem as mesmas taxas para empresas como Ifood e Rappi também precisam pagar as margens do cartão de crédito, que não reduziram seus valores. Existe um excesso de competição. Estão cobrando esses percentuais extremamente elevados. A expectativa é para que estes aplicativos de delivery não só venham a suprir aqueles que trabalham para eles, mas que também reduzam os percentuais para as empresas, não só para os pequenos. É inadmissível que alguém venha a ganhar com a crise e estas empresas, infelizmente, estão ganhando muito com a crise.



Como fica a situação de entregadores que venham a ser afastados por conta do coronavírus? Eles têm algum apoio das empresas e do governo?

Quanto aos entregadores não só de supermercados, mas de delivery de restaurantes, assim como os motoboys que fazem o mesmo sistema de entrega, eles estão muito sujeitos ao risco de infecção por coronavírus. A empresa tem que, de alguma maneira, dar todo material de higienização para que ele não corra riscos e também não exponha os clientes ao mesmo risco. Infelizmente muitos desses trabalhadores são informais e sofrem com uma queda na sua arrecadação. Então aquele auxílio emergencial que o governo federal está dando, de R$ 600,00, é para que possa sustentar essas pessoas, não só do comércio informal ou pessoas que operam negócios por aplicativo, preparação e entrega de comida, como os próprios entregadores. É uma expectativa positiva que eu tenho sentido que algumas pessoas do governo federal não têm tido uma sensibilidade próxima ao que está acontecendo no mercado real, especialmente em regiões metropolitanas como acontece aqui no Rio de Janeiro.



O alto número de novas contratações não põe em risco a qualidade do serviço e segurança do cliente? Será que as empresas estão avaliando a idoneidade de cada um? Afinal, muita gente abre o portão de casa para estes entregadores.

Realmente a situação que está acontecendo hoje quando as pessoas estão muito expostas ao contato e muitas vezes você tem que receber o entregador na sua casa, estabelece-se um risco muito grande principalmente para idosos. É muito importante que você que está comprando um produto delivery estabeleça um local seguro de entrega e, se possível, pague com cartão de crédito. E tão logo você receba esse material, faça a desinfecção através do álcool gel e jogue fora as embalagens para evitar uma possível contaminação. É um procedimento novo que as pessoas ainda não estavam acostumados, mas cada um tem que fazer isso. Também é preciso criar  a sua chamada “zona suja” em casa, um espaço na entrada onde você possa deixar um pano molhado com água sanitária para que o calçado que chegar da rua seja desinfectado. Esses novos procedimentos internos e nas relações comerciais são fundamentais para que todos venham a refletir e modifiquem sua postura.



O Estado do Rio de Janeiro tem algum projeto que trate desta relação entre empresa, entregadores e clientes? 

Existem muitos projetos que estão correndo no legislativo federal e até na própria Alerj no legislativo estadual. E aí eu destaco o trabalho do deputado Fábio Silva, que atua voltado para a questão da defesa do consumidor no sentido de que você venha a preservar a saúde nestas novas relações que possam priorizar o chamado público de risco, que são as pessoas com mais de 60 anos ou que tenha doenças pré-existentes. Nessa relação é algo bastante dinâmico, algo que nós estamos aprendendo com outros países e também com outros estados. E o Rio de Janeiro, através da Alerj, tem sido um bom exemplo para outros estados. Nós fomos inclusive os pioneiros nas medidas de preservar os nossos servidores e aqueles que trabalham como terceirizados para  a Alerj.



Algum outro aspecto desta crise que mereça destaque?

Outro aspecto muito positivo é a questão dos taxistas. Os aplicativos de transporte estão muito poucos solidários aos seus usuários. Primeiro porque aconteceu uma queda muito grande e as pessoas estão circulando menos. Segundo porque essas pessoas começaram a ter gastos complementares, gastos que não estavam previstos como máscaras e álcool gel. O uso de máscara no sistema de aplicativo e a questão do álcool gel viraram praticamente uma obrigação em todo o veículo. Então é fundamental que estas plataformas, muitas delas internacionais que ganharam e ganham rios de dinheiro, nesse momento ou pudessem suportar ou entregar esses produtos a baixíssimo custo ou até de graça para esses usuários. Seria importante também que pudessem reduzir essas taxas que aplicam aos motoristas de aplicativo. É o momento claramente de solidariedade. A gente está vendo muito pouco movimento por parte desses aplicativos. E que os taxistas cadastrados nas diversas prefeituras, poderes públicos e as empresas façam um bom trabalho. Um trabalho firme junto ao governo federal para que ele, de maneira muito rápida, célere e de forma desburocratizada, possa receber essa ajuda de custo complementar que o governo federal está oferecendo.