Quarentena levou à redução drástica de poluição na China e na Itália O novo coronavírus acabou provocando um benefício não intencional em alguns dos países mais afetados. As imagens de satélite mostram uma forte redução nos níveis de poluição na China entre janeiro e fevereiro. O mesmo acontece na Europa, sobretudo no norte de Itália, desde que foi decretada a quarentena.

Na China, as imagens de satélite divulgadas pela NASA e pela Agência Especial Europeia (ESA) recolhidas entre janeiro e fevereiro mostravam uma redução drástica nas emissões de dióxido de nitrogénio – ou dióxido de azoto (NO2) que é libertado sobretudo por veículos e por fábricas - nas maiores cidades chinesas.

O mesmo padrão surge quando se analisam os níveis de dióxido de carbono (CO2), que resulta da incineração de combustíveis fósseis, nomeadamente o carvão. Um dos elementos que ajudou à redução dos níveis de poluição foi também a queda das emissões devido à redução dos voos domésticos.

Entre 3 de fevereiro e 1 de março, as emissões de CO2 caíram 25 por cento a nível nacional devido às medidas adotadas para o combate ao novo coronavírus, indicou o Center for Research on Energy and Clean Air.

Uma redução igualmente drástica foi registada na Itália por consequência da quarentena daquele país para evitar a propagação do novo coronavírus. As imagens da ESA mostram uma forte redução de NO2, sobretudo no norte do país.

Um vídeo publicado pela ESA no Youtube, com imagens recolhidas pelo satélite Sentinela-5P, mostra a flutuação nos valores de dióxido de azoto entre 1 de janeiro e 11 de março deste ano.

É um paradoxo, mas a diminuição nos níveis de poluição - incitada pelas medidas de combate contra o novo coronavírus, que já fez mais de 10 mil vítimas mortais - poderá ter salvo 77 mil pessoas.

De acordo com uma estimativa do analista Marshall Burke, da Standford University, a redução dos níveis de PM2.5, as micropartículas que são responsáveis por grande parte das mortes no mundo devido à poluição, terá evitado a morte de 4.000 crianças com menos de cinco anos e de 73 mil adultos, só na China.

Mesmo com os cálculos mais conservadores, as vidas que foram salvas devido à diminuição dos níveis de poluição “são cerca de 20 vezes o número das vidas que se perderam com o vírus”, destacava o cientista, recorrendo aos dados disponíveis a 8 de março.

No entanto, Marshall Burke reconhece que os cálculos são apenas uma previsão dos níveis de mortalidade e que não incluem as várias consequências negativas das quarentenas.

Os cientistas temem agora que o regresso ao trabalho possa levar a níveis de poluição superiores aos registados antes da pandemia, na ânsia por parte de fábricas e empresas de recuperar o tempo perdido durante os bloqueios.

Veneza
A triste necessidade de entrarmos em quarentena revelou outra face inesperada: a redução do impacto do turismo sobre o meio-ambiente em algumas das cidades mais visitadas do mundo. É o caso de Veneza que, por conta da terrível situação na Itália e da rigorosa quarentena que atravessa, viu suas águas, sempre turvas e sujas, se tornarem cristalinas, com direito a peixes nadando nos canais.


*Com agências internacionais