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Igreja promete óleo ungido contra coronavírus e entra na mira da polícia

A promessa de bênção com óleo imunizador contra o coronavírus, anunciada por uma igreja de Porto Alegre neste domingo (1º), colocou autoridades gaúchas em alerta por se tratar de uma medida sem qualquer eficácia contra a covid-19.

A realização do culto, às 19h na Catedral Global do Espírito Santo, ganhou divulgação por meio de redes sociais e chegou ao conhecimento da Polícia Civil e do Conselho Regional de Medicina (Cremers) ao longo do dia. As duas instituições estudam medidas contra eventual prática que caracterize charlatanismo, crime previsto no Código Penal com punição de três meses a um ano de detenção e multa.

O anúncio foi veiculado por meio de um folder com o título "O Poder de Deus contra o Coronavírus". O texto convoca fiéis para ir à igreja com a seguinte chamada: "Haverá unção com óleo consagrado no jejum para imunizar contra qualquer epidemia, vírus ou doença".

Segundo o jornal Zero Hora, assim que recebeu uma cópia do convite, a chefe da Polícia Civil, delegada Nadine Anflor, designou uma equipe para assistir ao culto.

“Vamos lá para observar e avaliar o que pode ser feito”, disse ela ao jornal.

Dois policiais estiveram no local, um galpão na Avenida das Indústrias, na zona norte da Capital, mas foram identificados por brigadianos que atuavam na segurança e apresentados a membros da igreja ainda antes do início do culto. Na sequência, deixaram o templo.

Após quase uma hora de culto, o apóstolo Sílvio Ribeiro surgiu no altar, todo de branco, houve louvor e cerca de uma hora depois, o jornal relata que ele fez uma menção ao coronavírus:

“Epidemia de coronavírus, fora! — bradou, enquanto os músicos e os fiéis cantavam que "nada é impossível para Ti".

Durante o culto de quase três horas, Ribeiro comentou por diversas vezes sobre a doença. Ele também relacionou a doença a uma das profecias do apóstolo João, descrita no livro de Apocalipse. Neste momento, disse que era tempo de as pessoas pedirem perdão pelos pecados e procurarem uma igreja para serem salvas da doença.

O apóstolo também comemorou o aumento de seguidores nas próprias redes sociais, no domingo, depois da divulgação do culto onde abordaria o tema coronavírus. A partir das câmeras espalhadas por todo o prédio, a cerimônia foi transmitida ao vivo nas redes sociais da igreja.

O presidente do Cremers, Eduardo Trindade, acionou a assessoria jurídica da entidade para avaliar o tipo de providência mais adequada diante do anúncio de imunização feito pela igreja.

Conforme Trindade, a oração ajuda a elevar a fé das pessoas, mas, de maneira alguma, substitui medidas que evitam o contágio e a cura da doença por meio de tratamento médico.

Além de possíveis medidas judiciais, o presidente do Cremers disse que iria procurar o Ministério Público e a Secretaria de Saúde de Porto Alegre para que estudar outras ações.

Na última sexta-feira (28), o secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo, já havia feito um apelo para que se evitasse a propagação de mensagens como a da cura prometida pela igreja.

O coronavírus tem dois casos confirmados no Brasil e outros 252 casos suspeitos — sendo 27 no Rio Grande do Sul.