Contextualização cultural

Jesus foi o maior mestre da contextualização. Por que Ele falava por meio de parábolas? Para contextualizar a mensagem do seu Reino às pessoas com quem interagia. Jesus não apenas trazia a revelação doutrinária do Pai, Ele trazia a revelação aplicada, que fazia sentido para o cotidiano que o cercava.

Anteriormente, falamos que o evangelho é aplicável a todas as culturas em todas as épocas, mas isso refere-se ao conteúdo da mensagem, mas não a forma de transmissão, que é determinada pela cultura local. Simples: Cristo transmitiu seus ensinamentos em grego Koiné, fará algum sentido eu anunciar o evangelho para brasileiros puramente em grego? Ainda que a mensagem seja a verdade do evangelho e eu até esteja citando literalmente o original, ninguém vai entender. Agora traduzir essa mesma palavra para o português, isso é contextualização. 

Por sua vez, contextualização não é inculturação, isto é, adaptar o conteúdo da mensagem para torná-la mais palatável aos ouvidos. Não digo nem suavizar conteúdo, mas por exemplo, colocar Cristo em patamar de igualdade com os mitos e deuses daquela cultura.

Ronaldo Lindório, no capítulo dois de seu livro ‘Plantando Igrejas’, escreve:

“Contextualização é um ponto de tensão para todo comunicador. Por um lado, deve-se buscar a fidelidade de conteúdo daquilo que se deseja comunicar; por outro, deve-se zelar para que a mensagem comunicada seja verdadeiramente compreendida. [...] Enquanto a inculturação defende e propõe um deus “aceitável” culturalmente, a contextualização expõe Deus revelado e o evangelho que confronta a cultura, visto que o pecado contaminou o homem dentro de seu círculo sociocultural.”. 

Paulo, ao doutrinar as igrejas, sempre contextualizou a mensagem que havia recebido de Cristo. À Igreja de Corinto ele fala sobre os jogos olímpicos: “Todo atleta em tudo se domina” (I Co 9:25). Aos efésios, já fala através da figura militar: “Revesti-vos de toda armadura” (Ef 6:11). Por outro lado, em Antioquia, quando o Apóstolo fala para um público judeu, ele usa como início da sua exposição aspectos próprios da história israelita: “O Deus deste povo de Israel escolheu nossos pais e exaltou o povo durante sua peregrinação na terra do Egito” (At 13:17). Agora, o exemplo mais impressionante é quando o mesmo Paulo chega em Atenas, um povo completamente fora da lei mosaica e entranhado na filosofia neoplatônica: “E alguns dos filósofos e epicureus e estoicos contendiam com ele [...] dizendo: poderemos saber que nova doutrina é essa que ensinas? [...] Ao deus desconhecido. Pois esse que adorais sem conhecer é precisamente aquele que vos anuncio.” (At 17:16-31). 

O que diremos nós? Que Paulo adulterou o conteúdo de sua mensagem para cada povo? Ou, certamente precisamos entender que Paulo, enquanto maior missionário da história bíblica, sempre se importou com a cultura local e, a essa cultura ele contextualizou a mensagem para se fazer inteligível. 

Finalizo com um último parágrafo do professor Ronaldo Lindório, no já citado livro: “É pelo despreocupar-se com a contextualização que frequentemente encontramos templos de cimento para culturas de barro, pianos de calda para povos de tambores, terno gravata para os de túnica e turbante, sermões lineares para pensamentos cíclicos, sapatos engraxados para pés descalços. Estamos tão ocupados em exportar nossa cultura que nos esquecemos de apresentar-lhes Jesus, Deus encarnado, totalmente contextualizado, luz do mundo, revelado na única e incomparável Palavra, de forma que ouçam e entendam.


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