Missionário atua há 15 anos na evangelização de muçulmanos

O mundo muçulmano celebra nesta terça-feira (04) o Eid al-Fitr – comemoração que marca o fim do Ramadã. Milhares de pessoas se reuniram em várias cidades espalhadas pelo mundo para festejar o fim do jejum realizado no mês sagrado do islã. Enquanto eles celebram, cristãos oram para que o jejum possa ajudar a promover o encontro de muçulmanos com o único e verdadeiro Deus. Um destes cristãos é o missionário da Junta de Missões Mundiais para os povos árabes, Caleb Mubarak.



Casado com a missionária Rebeca há 20 anos, ele dedica 17 anos dessa união ao seu chamado. Caleb, juntamente com Rebeca e seu pequeno filho, Ismael, estão há 15 anos em missão no mundo árabe, trabalhando em especial com aqueles que professam o islamismo e também com a igreja sofredora. Seus rostos e verdadeiros nomes não podem ser divulgados; cristãos que professam sua fé no Oriente Médio e Norte da África são duramente perseguidos. Mas o exército de cristãos que oram por esses missionários sabe muito bem o quanto eles têm feito pela salvação em Cristo de muçulmanos.



Como tem sido atuar por tanto tempo junto aos muçulmanos?



CALEB MUBARAK: O mundo árabe hoje é composto por 23 países, com população de mais de 500 milhões de pessoas, dos quais 79% são muçulmanos. Mas há vários países com 99,9% de sua população formada por islâmicos. Nós trabalhamos junto a esse povo, desenvolvendo ações de humanitárias e ajudando quem precisa. E encontramos meios para evangelizar.



Quais são as deficiências que você percebe na visão da igreja sobre a missão que deveriam ser quebradas? O que é necessário para que haja entendimento sobre a missão de Deus?



Hoje temos igrejas mais preocupadas em entreter a juventude do que em conscientizá-la do seu papel no mundo. Temos o hábito de pensar que a geração do futuro fará algo e acabamos não assumindo esta responsabilidade. Não enxergamos o senso da urgência, de que estão acontecendo muitas coisas no mundo e nós estamos simplesmente olhando para o nosso próprio umbigo, achando que um culto temático na minha igreja com um músico legal trará a solução, enquanto há no mundo gente morrendo sem oportunidade de conhecer a Cristo.





Como e quando aconteceu o seu chamado para trabalhar com os árabes?



Meu encontro com Jesus foi num acampamento de verão, durante um carnaval no Rio de Janeiro. Já no primeiro dia de acampamento houve um apelo e eu senti que era para mim. Foi naquele sábado de carnaval que me converti. No último dia, aconteceu um apelo de vocação e foram apresentadas algumas necessidades ao redor do mundo e o desafio de que precisávamos fazer algo em relação àquilo. Entendi que eu precisava fazer alguma coisa. Mas o que determinou a minha ida para o mundo muçulmano, juntamente com a minha esposa, foi uma estatística. Eu estava na faculdade e, certo dia, um líder de Missões Mundiais apareceu para falar que para cada 1,5 milhão de muçulmanos havia apenas um missionário cristão entre eles. Isso há mais de 20 anos. Rebeca e eu entendemos que precisávamos fazer algo para mudar essa estatística. Entendemos que os muçulmanos eram o povo não alcançado menos evangelizado do planeta. E foi isso que determinou a nossa ida para lá.



Mas por que os muçulmanos árabes?



A etnia árabe é a mais difícil de ser alcançada, pois deu origem ao islamismo. O profeta deles veio da Arábia Saudita. Esses 23 países árabes são os países muçulmanos mais fechados à pregação do Evangelho e a gente foi nesse anseio de mudar uma estatística. Infelizmente, 20 anos se passaram e a estatística mudou de 1 para 1,7 missionário, chegando a quase 2 missionários para cada 1,5 milhão de muçulmanos. Isso em 20 anos! A estatística praticamente não mudou. A urgência está aí, mas poucos são os que se apresentam.



No Brasil, muitas pessoas e até mesmo líderes religiosos falam sobre a necessidade de barrar a entrada de refugiados no país. Como você entende que deve ser o olhar do cristão, daquele que tem Jesus Cristo, para o refugiado?



No Brasil, criou-se uma ideia de que o islamismo é uma ameaça à estabilidade da igreja. É completamente equivocado pensar dessa maneira. Muita gente pensa que terroristas entram entre os refugiados no país. É uma possibilidade. A igreja europeia pensa da mesma maneira. O drama dos refugiados começou há aproximadamente seis anos, e neste período a Europa foi tremendamente atingida por atentados terroristas. Mas nenhum desses atentados foi cometido por refugiados. Os terroristas desses atentados eram frutos da segunda geração de imigrantes que chegaram à Europa. São netos ou filhos de pessoas que chegaram nos anos 1980 e 1990. São cidadãos europeus, mas cresceram discriminados. E quando chegaram à idade adulta, se depararam com uma proposta para sua geração. E a proposta é dada pelo Estado Islâmico que diz para esse jovem: “Você pode dar satisfação pra sua vida. Mate em nome de Alá”. A Bíblia fala que tem que dar o outro lado do rosto, correto? Então o papel da igreja é amar, apesar de ferido. Se não fosse assim, os apóstolos não morreriam. Todos foram martirizados, com exceção de João, que morreu na ilha de Patmos. Mas todos foram assassinados por seguir a Jesus. O discurso de discriminação não pode ser o da igreja. Mas como Estado, o Brasil tem a obrigação de nos defender e nos proteger. Mas mesmo se terroristas entrarem em nosso país, há a possibilidade de a igreja, com o amor de Cristo, mudar o quadro e até mudar o terrorista fazendo com que ele seja alcançado pela graça de Deus.



Hoje vemos o crescimento da igreja sofredora, apesar de toda a perseguição. São pessoas que decidem seguir a Cristo e anunciar a salvação, mesmo sabendo que isso pode custar sua própria vida. Como é o dia a dia da igreja sofredora? Que mudanças estas pessoas sofrem a partir do momento em que decidem ser tornar cristãs?



Nunca tivemos pessoas vindo a Jesus todos os dias como tem acontecido no Irã, onde é proibido falar de Cristo e a perseguição é real. O missionário não tem entrado lá, Deus tem feito da maneira Dele. O dia a dia dessa igreja chamada sofredora varia de país para país. Em geral, é uma igreja que se reúne às escondidas, mas não é uma igreja que se reúne em caverna como todo mundo pensa. Eles se reúnem em suas casas e é chamada subterrânea porque se encontram às escondidas. E a dinâmica do dia a dia deles é muito difícil, pois não podem mudar de religião, sendo ela estampada no documento de identidade. A maior perseguição vem da família. Porque para eles o senso coletivo é maior do que o individual se comparado com o Ocidente. Num país muçulmano, quando uma pessoa se converte, ela está envergonhando a família. O conceito de honra e vergonha determina muito mais o andar da igreja sofredora do que de fato a religião.